Figura discreta mas singular da música portuguesa, Miguel Feraso Cabral construiu um percurso difícil de catalogar, situado entre a experimentação sonora, a improvisação e a canção alternativa. Multi-instrumentista e artesão de estúdio, trabalhou muitas vezes fora dos circuitos mais visíveis, tratando o som como matéria plástica e narrativa, numa lógica de colagem e exploração tímbrica que privilegia a curiosidade acima de qualquer género musical fixo.
Um dos momentos mais emblemáticos do seu trajecto foi o projecto Nevermet Ensemble, cujo álbum Quarto Escuro (2005) reuniu músicos espalhados por vários países sem contacto presencial, funcionando como uma comunidade criativa construída apenas através da troca de ficheiros.
Nos últimos anos, porém, a sua música aproximou-se da forma canção e da língua portuguesa, revelando uma faceta mais directa, irónica e pessoal. O seu mais recente disco, A Capa do Urso, um dos melhores de 2025 e que peca apenas pela invisibilidade com que atravessou o ano, mostra um autor que grava praticamente tudo sozinho e que mistura minimalismo, explosões eléctricas e humor subtil num mesmo espaço sonoro. É a partir deste percurso invulgar que Miguel Feraso Cabral partilha agora, em exclusivo para o Mente Cultural, os álbuns que mais o marcaram — uma janela privilegiada para o imaginário de um dos criadores mais livres e idiossincráticos da música portuguesa contemporânea.
1. Mr.Bungle
Mr.Bungle (1991)
No fim da adolescência eu expiava revoltas da idade e zangas confusas com o mundo a ouvir músicas agressivas, a espernear energia, algumas, vejo hoje, longe de serem interessantes. Quando descobri o primeiro álbum de Mr.Bungle foi uma espécie de abre-olhos. Surpreendeu-me a desconstrução despudorada de estilos rígidos e a sofisticação do humor em inúmeros elementos surpresa. Nunca antes ouvira humor e ‘selvajaria’ a coabitar tão bem. Foi o álbum que me fez devorar tudo o que Mike Patton lançava por um longo período. Ouvi em loop durante muito tempo.
2. Naked City
Naked City (1990)
No seguimento de um apetite por música surpreendente, com viragens improváveis e tresloucadas em cada tema, este disco também me marcou muito. Creio que foi quando comecei a olhar para fora do chamado rock, já que este álbum tem uma clara linha jazzística, embora exploda para todo o lado. Sempre li as passagens bruscas como sentido de humor sofisticado e adorava. Comecei a explorar o mundo do John Zorn e fiquei fã do baterista Joey Baron.
3. They Might Be Giants
They Might Be Giants (1986)
4. They Might Be Giants
Flood (1990)
Com TMBG descobri que também apreciava sonoridades estranhas longe da música agressiva. Os temas curtos, muito diferentes entre si, sempre com um toque arty, seduziram-me logo. As músicas são leves e alegres, com letras disparatadas. Creio que era o alinhamento bizarro que me entusiasmava. Os temas eram muito variados, mas não perdiam a identidade, de um todo, no meio da salada de mini-canções.
5. Faith No More
Angel Dust (1992)
Há uma estranheza ali que resultava, e bem, da conjugação da sonoridade pungente com os teclados planantes. A energia é contagiante, os ritmos são firmes com detalhes curiosos e a voz do Patton largou o tom anasalado um bocadinho irritante do anterior The Real Thing.
Toquei este álbum imensas vezes, quase de uma ponta à outra, com as baquetas na borda do colchão da cama do meu quarto, a replicar as baterias do Mike Bordin.
6. Mr.Bungle
Disco Volante (1995)
Este disco despertou-me para a atenção à produção. Já andava curioso com coisas mais experimentais e ouvi repetidamente este disco a dissecar pormenores sonoros. Há uma sujidade orgânica no som, detalhes cirúrgicos incríveis e uma aura de mistério. Mais uma vez o elemento surpresa prendeu-me, pois a estrutura de ‘canção’ coexiste com devaneios muito experimentais. Este é o meu disco preferido de Mr.Bungle.
7. Massive Attack
Mezzanine (1998)
Eu tinha um preconceito com a música electrónica por desconhecimento de todo um mundo de coisas boas nessa área. O Mezzanine foi uma revelação, pois introduziu-me numa linguagem muito diferente. A sonoridade escura, a pulsação lenta e a qualidade da produção desenham ali peso e beleza. Talvez por influência, comecei, por essa altura, a fazer as primeiras experiências instrumentais com electrónicas.
8. Foge Foge Bandido
O Amor Dá-me Tesão / Não Fui Eu Que Estraguei (2007)
As colagens e o som que transpira a analógico, mesmo que não o seja na realidade, impressionaram-me. Mas foi sobretudo o uso da língua portuguesa que me marcou. O Manel Cruz escreve com profundidade, recorrendo a linguagem corrente sem floreados, e funciona muito bem também em temas com estruturas menos convencionais. Foi o que me fez pensar na hipótese de poder cantar em português. Na altura, ainda não tinha coragem para o fazer, nem sabia muito bem sobre o que escrever. Estava a fazer coisas com línguas inventadas, com a voz submersa em efeitos electrónicos, mas fiquei com essa ideia na cabeça de um dia gravar em português
9. Queens of the Stone Age
Songs for the Deaf (2002)
Foi uma espécie de revisita ao rock, género que já ouvia muito pouco. A energia dos riffs, a bateria bruta e pouco óbvia do Dave Grohl e a voz do Josh Homme que nunca arranha combinam na perfeição. Este álbum fez-me ouvir todos os outros da banda.
10. Atticus Ross and Trent Reznor
The Social Network (2010)
Por um curto período, e tarde, percorri os álbuns do Trent Reznor com Nine Inch Nails e singles soltos dele. Depois ‘esqueci-me’. Mais recentemente, comecei a estar atento às bandas sonoras instrumentais para cinema que tem lançado com o Atticus Ross. Há algo de muito identificável como o dedo de Reznor no som dos sintetizadores, nos arpégios e nas progressões melódicas. Gosto da variação de temas enérgicos e pulsantes, com outros com uma espécie de calma torta. Este álbum foi o que mais ouvi e, por vezes, ainda uso como banda sonora para trabalhar.
11. Lucrecia Dalt
¡Ay! (2022)
Foi uma descoberta recente. Há outros álbuns dela que também gosto bastante, como a banda sonora The Seed. Há uma exigência na produção, um cuidado nos detalhes orgânicos, nas colagens e na electrónica texturada. Continuo a apreciar o formato canção com desvios bizarros e ela explora isso da melhor maneira.
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