Vencedor do Leão de Ouro no último Festival de Veneza, Father, Mother, Sister, Brother confirma Jim Jarmusch como um dos realizadores americanos independentes mais consistentes e fiáveis das últimas décadas. Não há aqui reinvenção radical nem vontade de agradar a novos públicos.
O filme divide-se em três episódios autónomos — Father, Mother e Sister Brother — ligados menos por narrativa do que por tema: a dificuldade persistente de comunicação entre pessoas que, teoricamente, deveriam estar próximas. Cada segmento funciona como um pequeno estudo sobre laços familiares, tempo perdido e intimidades que já não sabem bem como existir.
Em Father, o tom é contemplativo e austero, com Adam Driver num registo minimalista, quase imóvel, a lidar com a figura paterna (um ótimo Tom Waits)e com o peso do que nunca chegou a ser dito. É o segmento mais silencioso e aquele que mais dialoga com o Jarmusch clássico, onde o tempo parece suspenso e cada pausa carrega significado.
O segundo segmento, Mother, leva-nos a Dublin. Aqui, uma mãe escritora, interpretada por Charlotte Rampling, recebe as filhas adultas para a visita anual. Cate Blanchett e Vicky Krieps dão corpo a duas irmãs presas numa competição antiga pela atenção materna. A mãe, intelectualmente brilhante e emocionalmente exigente, faz perguntas que soam a interrogatório, mas cuja frieza nunca é totalmente esclarecida. As filhas, por sua vez, encenam versões idealizadas de si próprias — sobretudo a personagem de Krieps, que se apresenta como influencer bem-sucedida, enquanto pequenos detalhes revelam uma vida muito menos estável. Jarmusch nunca explica o conflito: limita-se a colocá-lo em cena, deixando que o desconforto fale por si.
O terceiro episódio, Sister Brother, muda-se para Paris e acompanha gémeos adultos, interpretados por Indya Moore e Luka Sabbat, a lidar com a morte recente dos pais num acidente de avião. Entre deslocações de carro, a limpeza do antigo apartamento e a organização de memórias, os dois revêem a história familiar e descobrem novas camadas nos pais — e em si próprios. É o segmento mais caloroso do filme, sustentado pela química natural entre os atores e por diálogos simples que, sem sublinhado, acabam por atingir fundo. Como em toda a obra de Jim Jarmusch, o essencial não está no que é mostrado, mas no que é sugerido. O filme pede que o espectador imagine, complete, escute.
Father, Mother, Sister, Brother não é um filme para converter céticos nem para alargar audiências. É um gesto de continuidade, feito com serenidade e precisão, por um autor que continua a filmar exatamente como quer — e que, por isso mesmo, permanece uma figura central do cinema independente americano









