Os Vaiapraia são, há vários anos, uma das presenças mais singulares e imprevisíveis da música portuguesa. Nascidos da inquietação criativa de Rodrigo, mentor, letrista e força motriz do projecto, a banda construiu um percurso feito de risco, humor, fragilidade e confronto directo com a realidade. Entre a canção, o rock, a spoken word e uma urgência quase punk na atitude, os Vaiapraia sempre recusaram a zona de conforto, preferindo expor as fissuras — pessoais, sociais e emocionais — como matéria-prima essencial da sua música.
Rodrigo é o centro gravitacional deste universo: um autor que escreve como quem sangra, mas também como quem ri de si próprio, equilibrando confissão, ironia e crítica social com uma frontalidade rara. As suas canções não procuram agradar nem oferecer respostas fáceis; antes convocam o ouvinte para um lugar de desconforto produtivo, onde a vulnerabilidade é força e a palavra tem peso real. Ao longo dos discos, os Vaiapraia foram afinando essa linguagem própria, tornando-se uma banda cada vez mais consciente do seu papel artístico e político.
Esse percurso atinge em 2025 um ponto de maturidade extraordinário com o lançamento de um álbum, Alegria Terminal, que nós, Mente Cultural, distinguimos como o melhor disco nacional do ano. Um trabalho intenso, coeso e emocionalmente devastador, onde tudo parece finalmente alinhar-se: a escrita mais afiada de Rodrigo, uma banda em absoluto estado de graça e uma visão artística clara, sem concessões. É um disco que não só sintetiza tudo o que os Vaiapraia vinham a construir, como eleva o projecto a um patamar de relevância incontornável na música portuguesa contemporânea.
Rodrigo Vaiapraia escolheu 12 discos que indicou serem apenas alguns dos mais importantes e sem ordem de preferência mas que nos ajudam a compreender um pouco melhor o seu universo.
1. Liz Phair
Exile In Guyville (1993)
Um universo irrepreensível que me deu ferramentas para eu encontrar o que precisava de perguntar e cantar, quando estava a começar Vaiapraia.
2. Pega Monstro
Pega Monstro (2012)
Pérola que escutei mal saiu, e vi ao vivo inúmeras vezes. Alvo de comentários ressabiados e sexistas na altura, mas anos depois resta só o legado e o culto. Um ajuste de contas ruidoso que me deu uma validação qualquer que eu não sabia que precisava.
3. The Ronettes
Presenting the Fabulous Ronettes (1964)
Um meteorito na música popular do século XX.
4. The Raincoats
The Raincoats (1979)
Quem sabe, sabe. Ser fã de Raincoats já me trouxe várias amizades.
5. Michelle Blades
Visitor (2019)
Uma jornada viva e dinâmica. Álbum mega coerente. Volto a ouvir frequentemente.
6. X-Ray Spex
Germ Free Adolescents (1978)
A melhor banda punk. Inteligente, engajada, viciante. 10/10. Poly Styrene tem uma influência incalculável.
7. Bleached
Ride Your Heart (2013)
Este disco são só hits atrás de hits. Os riffs, as guitarras, a viagem. Há um equilíbrio mágico no agrupar e alinhamento destas canções.
8. Shannon & The Clams
Dreams In The Rat House (2013)
Banda icónica e que merece mais atenção em Portugal. Disco animal, romântico, directo, javardo, luminoso, desiludido. A voz de Shannon Shaw é tudo.
9. Ocaso Épico
Muito Obrigado (1988)
Super fresco, desafiante, denso, estranho, relevante, pioneiro, exploratório e português.
10. Colleen Green
Sock It To Me (2013)
Um reconforto seguro e garantido.
11. Cassie Ramone
Sweetheart (2024)
O álbum que mais ouvi em 2024 e 2025. Com forte tempero nostálgico/retro, Cassie Ramone é perita na expressão imperfeita e formuláica do cançonetismo de amor e coração partido.
12. CSS
Cansei de Ser Sexy (2005)
A banda que maior impacto teve na minha vida entre os meus 13 e 17 anos. Um contraste forte com a restante cena indie rock da altura, que era no geral mais preguiçosa, enfadonha e fatalmente hetero. O concerto a que fui no Coliseu dos Recreios em 2008 foi seminal para mim.










