Roc Marciano – 656 (2026)

Francisco Pereira

Em “656”, Roc Marciano regressa ao controlo total da produção e reafirma a estética minimalista que moldou o rap underground moderno.

Roc Marciano dispensa apresentações longas, mas o seu novo disco, 656, ajuda-nos a contextualizar o seu percurso de forma particularmente clara. Natural de Hempstead, em Long Island, Marciano construiu uma carreira singular no hip-hop norte-americano, primeiro em colectivos como os The U.N. e depois, a partir de Marcberg (2010), como uma das figuras centrais do rap underground moderno. Esse disco definiu uma linguagem própria que viria a influenciar profundamente toda uma geração de artistas da costa leste. Desde então, a sua discografia tem crescido de forma consistente, alternando entre álbuns totalmente auto-produzidos e colaborações com produtores de referência.

Antes de 656, Roc Marciano vinha de uma sequência particularmente activa, com discos como The Elephant Man’s Bones (com The Alchemist), Marciology e The Coldest Profession (com DJ Premier). Esses trabalhos mostraram um artista confortável em partilhar o espaço criativo. 656 marca, no entanto, um regresso deliberado ao controlo absoluto: é o primeiro álbum em vários anos produzido integralmente por Marciano, e retoma a estética crua e autoral que esteve na base da sua afirmação inicial.

O disco aposta numa abordagem austera e cinematográfica. As batidas são maioritariamente despojadas, muitas vezes sem bateria evidente, construídas a partir de loops sombrios, samples texturados e baixos densos que criam uma atmosfera de constante tensão. Este minimalismo não é por acaso, pelo contrário, serve de palco ideal para a voz de Marciano, que ocupa o centro do álbum com um flow pausado, confiante e cheio de subtilezas rítmicas.

656 mantém também os temas recorrentes do seu universo. Temas como o luxo silencioso, sobrevivência, poder simbólico, cultura de rua e um humor seco que raramente se anuncia de forma óbvia. O título do disco, ambíguo e carregado de simbolismo, encaixa nessa lógica de sugestão em vez de explicação direta. As participações são mínimas, reforçando a sensação de que este é um disco fechado sobre si próprio, quase introspectivo, apesar da postura segura e dominadora.

No conjunto, 656 não pretende reinventar Roc Marciano. O álbum funciona como uma reafirmação de método e identidade, mostrando um artista que domina plenamente o seu vocabulário e sabe exactamente quando o usar. É um disco de precisão que continua a refinar, com rigor e personalidade, uma das linguagens mais influentes do hip-hop contemporâneo.

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