Os These New Puritans regressam a Portugal com tempo e atenção numa mini-digressão que atravessa quatro cidades, recusando a lógica apressada da circulação europeia para apostar num contacto mais íntimo com os lugares, as salas e as pessoas. Não é apenas uma série de concertos, mas uma estadia, quase uma residência em movimento, onde a música respira ao ritmo do território que a recebe.
Ao vivo, a obra dos irmãos Barnett sempre se construiu nesse território instável entre o brutal e o sublime, o peso físico do som e o silêncio que o antecede ou o prolonga. Crooked Wing, o mais recente capítulo de uma discografia que nunca se repete nem se acomoda, aprofunda essa relação com a matéria sonora — sinos, percussões afinadas, órgãos — depurada até ao essencial, sem ornamentos supérfluos.
Nesta conversa com o Mente Cultural, Jack Barnett fala sobre o desejo de permanecer, sobre Portugal como espaço fértil para uma música que exige escuta e tempo, sobre a presença especial de Elisa Rodrigues nesta digressão e sobre a fé — ainda intacta — num público disposto a perder-se em experiências que não cabem nos algoritmos. Uma entrevista que antecipa concertos pensados como momentos únicos, irrepetíveis, onde o caos e o sonho podem, finalmente, coexistir.
11 Fevereiro – Lisboa – B.Leza
12 Fevereiro – Faro – Teatro das Figuras
13 Fevereiro – Penafiel – Centro da Cultura e Criatividade
14 Fevereiro – Espinho – Auditório Municipal
Mente Cultural – Esta mini-digressão em Portugal inclui quatro concertos, o que não é muito comum. O que vos motivou a escolher um formato mais extenso e intimista em vez de uma passagem rápida por uma ou duas cidades?
Jack Barnett – Recebemos algumas propostas para este inverno. Decidimos fazer esta. Na digressão europeia do ano passado, não tivemos grande oportunidade de passar tempo em cada cidade – muitas vezes começávamos às 6 da manhã e conduzíamos durante 10 horas, todo o glamour do mundo do entretenimento! Muitas vezes, vê-se uma sala de espetáculos, a rua em frente e um hotel que podia estar em qualquer lugar.
Gosto muito de Portugal, por isso a ideia de passar aqui um bom bocado foi muito aliciante, para absorver a atmosfera local. Há um certo paralelo entre os nossos dois países, talvez seja a grandeza decadente das nações marítimas varridas pelo vento no Atlântico. As salas de espetáculos são lindíssimas, alguns teatros muito bons. E todos estavam disponíveis. Além disso, teremos connosco um convidado muito especial. Assim, tudo se encaixou e fez sentido.
MC – Ao vivo, a vossa música assume muitas vezes uma intensidade muito particular, por vezes até desconfortável. Que tipo de experiência querem criar para as pessoas que assistem a estes concertos em Portugal?
Jack Barnett – Com a banda ao vivo, há momentos de verdadeira intensidade e outros em que tudo é bastante suave, calmo e tranquilo. Grande parte da nossa música tem a ver com o contraste, o brutal contra o sublime. Isso sempre foi fundamental para nós. Acho que é assim que as coisas são muitas vezes fora da música, por isso faz sentido que a nossa música também seja assim.
Vamos levar alguns instrumentos metálicos – sinos tubulares, vibrafone, correntes – heavy metal, mas não ESSE tipo de heavy metal.
MC – Portugal tem uma forte tradição musical ligada à intensidade emocional e ao silêncio. Sente que isto cria um terreno fértil para a sua música ao vivo?
Jack Barnett – Sim, acho que sim. Parece-me o local certo para a música. Adoro a Amália Rodrigues. Que força da natureza, como o vento ou o mar. A Ana Moura também.
A Elisa, que cantou no nosso terceiro álbum, vai cantar connosco durante a digressão, pela primeira vez em anos, talvez uns dez anos. Ela deu à música uma dimensão onírica completamente nova, por isso será ótimo voltar a esse sonho. A música que ouvi dela, que me fez querer trabalhar com ela, chama-se “Sonhos”, é apenas a sua voz, muito crua e muito poderosa. Estou muito contente por ela a poder fazer.
MC – Crooked Wing chegou após um intervalo relativamente longo entre álbuns de estúdio. O que mudou no processo criativo durante esse tempo — e o que se manteve essencialmente igual?
Jack Barnett – É quase impossível acompanhar, porque ao fim de tanto tempo tornamo-nos realmente numa pessoa diferente daquela que fez o álbum anterior.
MC – Ao longo da vossa discografia, cada álbum parece seguir a sua própria lógica interna. O que distingue Crooked Wing dos seus trabalhos anteriores na forma como foi construído?
Jack Barnett – Os sons — sinos, percussão afinada e órgão — estão muito presentes neste álbum. Acho também que ele tem uma pureza, todos os sons supérfluos foram removidos, lapidados até restar apenas o estritamente necessário. Não é nada rebuscado. Tentámos fazer algo simples.
MC – Existe uma relação muito forte com o corpo — com a respiração, com o peso físico do som. Este álbum foi concebido desde o início para ser vivenciado ao vivo?
Jack Barnett – Não foi concebido para ser vivenciado ao vivo. Na verdade, ignoro sempre as possibilidades do ao vivo quando estou a gravar e a compor, porque em estúdio pode-se tornar o impossível possível, não de uma forma filosófica profunda, mas sim de uma forma prática. Então quero sempre aproveitar todas estas possibilidades aparentemente impossíveis! A experiência ao vivo é onde temos de reinventar a música. Para cada álbum, temos uma banda diferente.
MC – Num mundo cada vez mais acelerado e ruidoso, que tipo de espaço existe hoje para a música que exige atenção e tempo?
Jack Barnett – Preciso de acreditar que há espaço para este tipo de música. Não é o tipo de música que agrade aos algoritmos, digamos assim (risos). É um mundo hostil para a música fora da pop e daquelas clássicas financiadas pelo governo. Mas acredito que há pessoas por aí que querem algo em que se possam realmente perder. Algo que não se comprometa em prol dos algoritmos. Verdadeiros amantes de música. É por essas pessoas que criamos, são as pessoas que temos de torcer para que existam, acho eu. Eu ainda tenho fé!
MC – Para alguém que ouve Crooked Wing ao vivo pela primeira vez, o que acha que se perde — e o que se ganha — em comparação com a audição do disco?
Bem, ganhámos a Elisa Rodrigues. Temos uns sinos tubulares lindíssimos que poderão admirar, haha. Acho que o programa tem um pouco mais de caos, há momentos em que realmente deixamos as coisas expandirem-se e serem abertas, trechos que nunca são iguais de uma noite para a outra. Desta forma, o público recebe algo único, e nós também, no momento em que tocamos.
* fotografia de Jeremy Young










