15 álbuns: As escolhas de André Carvalho

Francisco Pereira

André Carvalho é um dos músicos mais distintos da nova geração da música contemporânea portuguesa. Para o Mente Cultural escolheu 15 álbuns fundamentais no seu percurso de vida e musical.

André Carvalho é um dos músicos mais distintos da nova geração da música contemporânea portuguesa. É um contrabaixista, compositor e pensador sonoro cuja obra tem vindo a cruzar territórios como o jazz, a música erudita contemporânea, o experimentalismo e a composição cinematográfica com uma sensibilidade única. Estudioso e viajado, com experiências que incluem formação em importantes instituições internacionais e colaborações em palcos como o Blue Note de Nova Iorque ou o Barbican Centre, Carvalho tem vindo a afirmar-se como um artista cuja linguagem musical desafia categorias e convida à escuta profunda.

Em 7 de novembro de 2025, lançou Of Fragility and Impermanence, um álbum que surge como uma obra meditativa sobre a transitoriedade da vida, a vulnerabilidade humana, o tempo que passa e o que – apesar de tudo – nos liga uns aos outros. O disco, editado pela Robalo Music, reúne um grupo de intérpretes associados à cena criativa contemporânea — José Soares (saxofone), Raquel Reis (violoncelo), Samuel Gapp (piano) e João Hasselberg (eletrónica) — e conjuga timbres acústicos e electrónicos para criar uma paisagem sonora que navega entre composição e improvisação, silêncio e densidade, fragilidade e força.

Mais do que uma colecção de peças instrumentais, Of Fragility and Impermanence é uma reflexão profunda sobre o que significa viver, amar, crescer e enfrentar a efemeridade de cada momento — temas que André Carvalho aborda também na sua escolha de 15 álbuns fundamentais no seu percurso de vida e musical.

1. Simon & Garfunkel

Bridge Over Troubled Water (1970)

É realmente difícil escolher um álbum de Simon & Garfunkel que seja o meu preferido mas este talvez seja um dos meus preferidos. Gosto de muitos outros, mas este tem uma das minhas músicas preferidas – “So Long, Frank Lloyd Wright”. Sou grande fã da música deles e oiço com frequência a sua discografia. Sou também grande fã do The Graduate que tem justamente banda sonora deles.

2. Carlos Bica

Azul (1996)

Foi um dos primeiros álbuns de Jazz português que ouvi e talvez um dos primeiros concertos que vi de um contrabaixista português e que me fez, de forma imediata, apaixonar pelo contrabaixo. O grupo é fenomenal assim como as composições e a forma como são tocadas. O grupo destaca-se pela sua originalidade e arrojo, especialmente tendo em conta a cena jazzística nacional na altura.

3. Alva Noto

Kinder der Sonne (2023)

Nos últimos anos, tenho ganho um apreço especial por alguma música electrónica e Alva Noto é um dos artistas que me tem chamado a atenção. Gosto particularmente deste álbum, é uma verdadeira viagem sónica, com atenção ao detalhe de cada som e textura.

4. Bill Evans Trio

Sunday at the Village Vanguard (1961)

Um dos primeiros álbuns de Jazz que tive e um dos que me fez apaixonar por este estilo. A forma como o trio toca, se relaciona e como os vários papéis mudam é incrível. Quando ouvi este disco adorei a música, mesmo sem perceber grande parte do que se estava a passar musicalmente. É a última gravação do gigante Scott LaFaro e este facto torna a coisa ainda mais dramática.

5. Miles Davis

Kind of Blue (1959)

Difícil não ter este álbum na lista de preferidos de alguém que tem uma relação com o Jazz como tenho. É realmente incontornável e as razões muitas, começando pelo facto de o grupo soar mesmo bem, para além do som ter um som incrível e ser um marco na história do Jazz. Ouvi mesmo muitas vezes este álbum.

6. Olivier Messiaen

Quatuor pour la fin du temps (1941)

Se há música que foi uma verdadeira revelação foi a incrível música de Olivier Messiaen e esta obra é simplesmente fantástica. Retorno a esta música com muita frequência e é uma verdadeira fonte de inspiração e que transcende o plano Humano.

7. John Adams

The Chairman Dances (1985)

Há uns quantos anos descobri a música de John Adams e fiquei simplesmente apaixonado pelo universo que cria. Esta obra em particular foi muito inspiradora e tentei transmitir algum do espírito que tem nalgumas das composições do meu novo álbum “Of Fragility and Impermanence”. Jonn Adams é, para mim, um pensador realmente interessante e deixo também a sugestão de leitura da sua auto-biografia: “Hallelujah Junction: Composing an American Life”.

8. Hildur Guðnadóttir & Jóhann Jóhannsson

Mary Magdalene (2018)

Adoro a música música da Hildur e do Jóhann e são verdadeiras fontes de inspiração, não só para a música que faço para cinema, como também para toda música que faço para projectos meus mais recentes. Creio que são compositores extremamente sensíveis e que a sua música consegue capturar com enorme sucesso o espírito dos filmes para que fazem música. Escolhi esta banda sonora porque gosto muito do filme, mas também porque a música é verdadeiramente especial. De qualquer forma, é difícil escolher uma das suas bandas sonoras porque todas elas são únicas, distintas e verdadeiramente especiais.

9. Taylor Deupree

Eev (2023)

Descobri a música do Taylor Deupree há uns anos e fascina-me o cruzamento e combinação de electrónica e acústica, uso de gravações, fragmentos, texturas. Acho que a música capta um mood incrível e está sempre muito bem apresentada e misturada. Gosto do slow pacing que ele dá à música.

10. Brad Mehldau Trio

Songs: The Art of the Trio Volume Three (1998)

Um grande trio, com três figuras importantíssimas no Jazz contemporâneo, que, partindo da tradição do piano trio de Jazz, seguiram em frente e trouxeram coisas novas a este estilo. Ouvi inúmeras vezes este (e outros álbuns do trio). Gosto particularmente destes que são ao vivo porque captam a espontaneidade, descontração, frescura e precisão com que o trio toca.

11. Trondheim Voices & Christian Wallumrød

Gjest Song (2022)

Há uns tempos escrevi a banda sonora para a curta Atom & Void de Gonçalo Almeida, um projecto verdadeiramente desafiante para um filme realmente diferente e inovador. O Gonçalo tinha sugerido algo com vozes. Aceitei o projecto com muito entusiasmo, mesmo sem nunca ter escrito para coro. Ouvi muitas coisas que me inspiraram (e inspiram) e este grupo coral é sem dúvida fenomenal. Adoro a forma como soa, assim como as composições

12. Sara Serpa & André Matos

All the Dreams (2016)

Este é um disco que ouvi muito durante o periodo em que vivi em Nova Iorque. Repleto de belíssimas composições, interpretações fantásticas e um mood intimista e sonhador a que a Sara e o André tão bem nos habituaram.

13. Leonard Bernstein - Wiener Philharmoniker

Brahms: Symphony No. 3 (1981)

Uma das minhas peças preferidas do repertório clássico numa interpretação fantástica!

14. John Cage

Early Piano Music (2005)

Sou um grande fã da música do John Cage e adoro as suas composições para piano, em particular “The Seasons” e “In a Landscape”.

15. Duke Ellington and John Coltrane

Duke Ellington & John Coltrane (2003)

Durante uns quantos anos ouvi com muita atenção e frequência a música tanto do Duke como do Coltrane. Ambos músicos fascinantes e que mudaram o rumo da música Afro-americana, influenciaram subsequentes gerações por terem uma personalidade muito forte, uma voz diferenciada e irreverência. Volto inúmeras vezes a discos destes dois monstros. Gosto muito deste em que eles se encontram.