A nova adaptação de Wuthering Heights por Emerald Fennell não quer ser uma tradução fiel do clássico de Emily Brontë. Quer ser uma interpretação sensorial, estilizada e profundamente contemporânea. E é precisamente isso que está a dividir o público: os puristas estão a rejeitá-lo, enquanto outros se deixam hipnotizar pela sua proposta assumidamente estética e emocional.
Desde o primeiro plano, percebe-se que Fennell está menos interessada na literalidade narrativa e mais na atmosfera. Este é um filme de vibração, de textura, de sensação. A realizadora volta a afirmar aquilo que já era evidente em Promising Young Woman e, sobretudo, em Saltburn: o seu cinema é profundamente plástico, obsessivo com composição, cor e corpo. Cada plano parece pensado como um objeto autónomo, quase escultórico. Há vento, pele, tecido, respiração — mais do que exposição narrativa, há experiência.
A escolha de Margot Robbie e Jacob Elordi reforça essa dimensão mitológica. Ambos trazem uma presença física que transcende o psicológico. Robbie constrói uma Catherine simultaneamente etérea e perigosa, menos ingénua e mais consciente da sua própria força destrutiva. Elordi, por sua vez, transforma Heathcliff numa figura quase espectral — não tanto um homem ferido, mas uma ferida em forma humana. Mais do que personagens, são símbolos em combustão lenta.
A banda sonora de Charli XCX é uma das escolhas mais inesperadas e eficazes. Em vez de uma abordagem clássica ou orquestral, Fennell opta por uma pulsação moderna, eletrónica e emocionalmente crua. O resultado é um estranho deslocamento temporal que funciona surpreendentemente bem. A música não ilustra a época — traduz o estado interno das personagens. Amplifica o desejo, o vazio e a obsessão.
Mas esta liberdade estética tem um preço. Narrativamente, o filme é fragmentado, por vezes distante. Quem espera a progressão dramática clara e devastadora do romance original poderá sentir frustração. Fennell sacrifica coerência narrativa em favor de intensidade sensorial. Nem sempre o equilíbrio resulta. Há momentos em que o filme parece mais interessado em ser contemplado do que sentido. E ainda assim, é difícil desviar o olhar.
Este Wuthering Heights não substitui o romance. Nem tenta. Pode irritar, pode fascinar, pode parecer excessivo. Mas confirma algo que já se tornava evidente: Emerald Fennell não está interessada em fazer cinema seguro. Está interessada em criar imagens que permanecem — belas, perturbadoras e impossíveis de ignorar.











