Há filmes que acabam e deixam uma resposta. Teenage Sex and Death at Camp Miasma acaba e deixa uma pergunta: o que é que eu acabei de ver? E talvez seja precisamente essa a melhor maneira de entrar no cinema de Jane Schoenbrun.
O título, convenhamos, não podia ser mais eficaz para atrair espectadores. Tem “teenage”, tem “sex”, tem “death”, tem “camp” e tem “horror”. Parece quase uma promessa de slasher adolescente daqueles que se veem com um balde de pipocas e o cérebro em modo avião. Só que Schoenbrun não está particularmente interessada em cumprir essa promessa. Há sangue, corpos desmembrados, sexo, nudez, orgasmos, um assassino mascarado e uma quantidade considerável de sangue falso — mas Camp Miasma está muito mais interessado na relação entre cinema, desejo, identidade e fantasia do que propriamente em assustar.
E é aí que o espectador menos avisado pode ficar pelo caminho.
A história começa com Kris (Hannah Einbinder), uma jovem realizadora queer que recebe a missão de ressuscitar uma velha franquia de slasher dos anos 80, Camp Miasma. A série fictícia teve vários filmes, jogos, merchandising e a habitual decadência de qualquer fenómeno de terror que tenha sido esticado até já ninguém saber muito bem porquê. Kris decide procurar Billy Presley (Gillian Anderson), a final girl do primeiro filme, entretanto retirada do mundo e a viver precisamente no local onde o original foi filmado.
A partir daqui, a fronteira entre o filme que Kris quer fazer, o filme que estamos a ver e o filme que existe dentro de Camp Miasma começa a ficar cada vez mais esbatida.
E Schoenbrun diverte-se imenso com isso.
O Camp Miasma original é uma espécie de primo de Friday the 13th: adolescentes num acampamento, sexo, drogas, sangue e um assassino chamado Little Death (Jack Haven), uma figura de género ambíguo que aparece com uma máscara particularmente absurda — uma espécie de grelha de ventilação — para espetar adolescentes com uma lança. A abertura do filme inventa toda a história desta franquia imaginária através de capas de revistas, VHS, brinquedos, recortes de jornais e publicidade, como se Camp Miasma tivesse realmente existido. É uma das melhores partidas do filme: durante alguns minutos, quase sentimos nostalgia por algo que nunca vimos.
Mas Teenage Sex and Death at Camp Miasma não é apenas uma brincadeira cinéfila. O slasher serve a Schoenbrun para falar da maneira como o cinema pode entrar no corpo de quem o vê. Como determinadas imagens ficam associadas à adolescência, ao desejo, ao medo e à descoberta sexual. E como uma pessoa pode encontrar numa obra aparentemente trash uma espécie de linguagem para perceber quem é.
É uma preocupação que já vinha dos dois filmes anteriores da realizadora. We’re All Going to the World’s Fair explorava a relação entre uma adolescente e um desafio de terror viral na internet; I Saw the TV Glow levava essa ideia para a televisão e para a construção da identidade através da cultura pop. Aqui, Schoenbrun chega ao cinema de terror e ao slasher. Não é, portanto, uma mudança de assunto: é quase uma continuação da mesma obsessão por outros meios.
E quem viu o primeiro filme já sabe ao que vai. Ou, pelo menos, devia saber.
We’re All Going to the World’s Fair era também um filme estranho, atmosférico, deliberadamente ambíguo e pouco interessado em entregar respostas mastigadas. Foi descrito como “narratively challenging” e “visually haunting”, mas também houve quem o considerasse excessivamente artístico, opaco ou pouco satisfatório. Schoenbrun parece ter levado essa característica ainda mais longe em Camp Miasma. Só que agora embrulhada em sangue, sexo, humor, cores berrantes e uma aparente vontade de fazer um filme muito mais divertido.
O resultado é qualquer coisa de desconcertante.
Hannah Einbinder é excelente como Kris, precisamente porque consegue fazer daquela obsessiva do cinema alguém simultaneamente cerebral e emocionalmente bloqueada. Kris sabe falar interminavelmente sobre filmes, género, representação e aquilo que Camp Miasma significa culturalmente. O problema é que, quando a conversa deixa de ser sobre cinema e passa a ser sobre ela própria, fica sem palavras.
Do outro lado está Gillian Anderson, absolutamente à vontade numa personagem que parece ter saído de um cruzamento improvável entre uma final girl, uma diva decadente e uma mulher que passou demasiado tempo a viver dentro da própria fantasia. Billy é misteriosa sem precisar de fazer grandes esforços para parecer misteriosa. Anderson dá-lhe uma mistura muito interessante de fragilidade, sexualidade e perigo.
A relação entre as duas é, no fundo, o coração do filme. Não é por acaso que Schoenbrun descreveu o filme como sendo sobre “dois esquisitos” que encontram alguém capaz de acompanhar a sua própria estranheza. A química entre Einbinder e Anderson é fundamental para que aquilo que poderia parecer apenas um exercício intelectual ganhe alguma pulsação emocional.
O título vai chamar espectadores que querem terror. O sangue vai chamar espectadores que querem slasher. Gillian Anderson vai chamar espectadores de The X-Files. Hannah Einbinder vai trazer quem a conhece de Hacks. E a palavra “sex” fará o resto. Só que uma parte dessas pessoas poderá chegar ao fim com a sensação perfeitamente legítima de: “Mas… o que foi isto?”