O artista visual e músico português João Pimenta Gomes apresenta, a 1º de outubro, o disco Dois Desertos. Gravada num único dia, a obra nasceu sem agenda nem guião, durante uma estadia do autor na cidade de Los Angeles. O tom das nove faixas que compõem o álbum, lançado pela editora independente Amor In Sound, é onírico — e, mais do que isso, lança sobre a metrópole o olhar de quem a observa de fora, sem a pressa de lhe pertencer e entregue à permeabilidade das suas vibrações.
“Este disco foi feito a partir de uma liberdade muito grande, guiada pelos encontros. O que se ouve é um registro do que aconteceu naquele momento”, explica o autor. Com produção de Mario Caldato Jr., além de contar com a presença dos músicos Abe Rounds (bateria e percussões) e Gabe Noel (contrabaixo e cello), Dois Desertos aporta ao ouvinte partituras simples, algumas construídas apenas com a harmonia escrita.
A mistura, também realizada ao vivo por Caldato Jr., segue esse espírito, com efeitos e volumes trabalhados em tempo real, todos captados num two-track final. É o cristal baschet, escolhido como instrumento central, que define parte significativa do carácter sonoro apresentado. Através de fricções manuais que fazem com que varas de vidro façam ressoar chapas de metal, criando um som que o artista descreve como “um rasto, quase como uma sombra”, o instrumento assume um papel de suporte, enquanto o contrabaixo e o violoncelo conduzem as melodias. Estas dividem-se entre composições originais e, em casos específicos, têm como ponto de partida excertos de fados tradicionais, tratados de forma aberta.
A princípio concebido para se chamar Eagle Rock — uma referência à localização do estúdio de gravação —, o álbum haveria de ganhar contornos conceptuais mais amplos. “O deserto é um lugar muito belo e visual, basta mencionar a palavra e somos transportados até lá. É algo que se vê e também carrega a ideia de vazio, um horizonte a que não se chega, uma ideia de utopia”, diz João. “Na música que faço, essa utopia é importante. Não existe propriamente uma conclusão do disco, é algo que está em desenvolvimento.” Assim, as suas novas músicas revelam-se como uma peça inteira, em que a recompensa máxima da escuta está na possibilidade de planar, indo ao encontro da experiência.
Inspirado por tudo aquilo que uma grande cidade pode oferecer em termos de som e imagem, João Pimenta Gomes continua a guiar-se, neste percurso, por referências ligadas ao cinema. Na construção do olhar exterior que introduz em Dois Desertos, estão filmes como The Model Shop, realizado pelo francês Jacques Demy e lançado precisamente na transição entre as décadas de 1960 e 1970. Noutro plano, surge o filme-ensaio Los Angeles Plays Itself, de Thom Andersen, lançado em 2003. Ambas são obras que examinam as formas como a cidade se revela e a sua atmosfera, tanto quando esta se pretende anónima como nos momentos em que a própria cidade assume o papel de foco.
“A impressão que tenho de Los Angeles, vindo da Europa, é muito específica. Existe uma visão utópica do que seria a cidade e de como vivem as pessoas que por ali passam”, comenta João. “Este disco dialoga com referências culturais e com o confronto imposto a alguém que aqui chega pela primeira vez. É algo que se vê à distância, e essa ideia pode ser muito expressiva. O que me interessa é continuar a refletir sobre o que é utópico e como pode tornar-se plástico.”
A par deste lançamento, João Pimenta Gomes prepara uma nova exposição, intitulada New Age, com inauguração prevista para 1º de outubro, no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), em Lisboa. Com a premissa de estabelecer ligações entre diferentes propostas, esta será a segunda vez que o artista ocupa o espaço. “A ligação da exposição com este disco é que ambos partem do mesmo instrumento, o cristal baschet, e da mesma prática de atelier. Na exposição, aproveito as ‘pétalas’ de metal que existem para tocar sons de voz, tocar uma nova peça que estou a compor. Tudo acontece à volta deste instrumento, desmembrando o cristal Baschet, em ambos os contextos.”
No final, o novo LP de João Pimenta Gomes propõe uma escuta imersiva, revelando um lado mais exploratório do seu trabalho e a proposta da editora discográfica Amor In Sound, que procura lançar projetos autorais em diálogo com diferentes linguagens da música e das artes contemporâneas. Entre o improviso e a composição, entre a experiência concreta de uma cidade e a imagem que dela se constrói à distância, Dois Desertos transforma encontros e perceções em matéria sonora, aberta aos deslocamentos e às possibilidades de interpretação a cada escuta.
* fotografia de Teresa Santos