Doclisboa 2026: Entre o Olhar Crítico e o Futuro da Indústria, Conheça os Filmes e Projetos Premiados.

O Doclisboa 2026 encerrou na Culturgest. Conheça os filmes premiados, as festas na Galeria Zé dos Bois e as extensões no Cinema Ideal e Cinemateca Portuguesa.

Há um porto seguro profundamente necessário na forma como o Doclisboa nos obriga a parar e a escutar, mas também na maneira como nos convida a celebrar esta nostalgia e o viver o documentário, sentirmos na pele, toda a experiência que é fazer parte deste festival. Quando as luzes das salas da Culturgest se apagaram após a exibição do filme de encerramento Thanks for Coming, de Alain Cavalier, o sentimento que habitava o espaço era o da despedida talvez com algumas lágrimas da equipa e dos espectadores que vão ter que esperar mais um ano; esta edição que, entre os dias 15 e 25 de outubro, voltou a provar que o cinema documental está vivo e de boa saúde e recomenda-se.

A cerimónia de entrega de prémios da 24.ª edição coroou a urgência do olhar, celebrando obras que recusam o esquecimento. Na Competição Internacional, o Grande Prémio Cidade de Lisboa foi entregue a Car la Lune, de Éric Baudelaire, um filme que o júri acolheu por celebrar os sons e as imagens do cinema ao aceitar, com grande maturidade estética, a presença e a ausência do mundo visual.

Car la Lune, de Éric Baudelaire

O palmarés internacional reafirmou a vocação do festival em confluir geografias e fraturas históricas, destacando a precisão cirúrgica de Ghassan Salhab em Noli me tangere no retrato das camadas da história libanesa com o Prémio Doclisboa do Júri. 

Paralelamente, o Prémio Médicos Sem Fronteiras, Portugal para Melhor Realização consagrou o regresso da dupla João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata com 13 Alfinetes, um objeto de uma riqueza imaginativa e invenção cinematográfica que se tornou impossível de ignorar.

No ecossistema do cinema português, a deliberação do júri fez ressoar uma voz coletiva necessária, principalmente neste mês de Outubro.

O Prémio Doclisboa para Melhor Filme da Competição Portuguesa foi atribuído por unanimidade a A Voz de Todos, Jornal do Fundão, de Manuel Mozos, uma obra que se ergue como um farol de democracia, liberdade de expressão e resistência ao fascismo, lembrando-nos da coesão social como pilar fundamental do presente.

A poesia sensorial e telúrica do cinema nacional encontrou o seu espaço em Hipogeus, de Raul Domingues, distinguido com o Prémio Sociedade Portuguesa de Autores numa ata poeticamente inspirada num haiku de Matsuo Bashō sobre o instante recolhido entre a cachoeira e as rochas. Já a urgência política de Ico Costa em Povo e Poder conquistou uma Menção Honrosa e o Prémio Escola , ETIC, ao fixar com domínio técnico e clareza concisa os rostos e gestos de um povo sucessivamente expropriado do seu próprio poder.

A frescura da criação emergente ecoou com força na secção Verdes Anos, onde A Fossa, de Manuel Ferreira, conquistou o Prémio Conserveira de Lisboa através da sua liberdade narrativa e de uma calorosa apreciação de lugares e pessoas. No âmbito nacional desta secção, o Prémio Pedro Fortes foi entregue a Ponto de Fuga, de Rita Torres, pelo rigor e mestria da sua proposta, enquanto a Menção Honrosa a Square of the Unseen, de Theodore Selekos, resgatou a poesia realista que habita nas sombras da luz metropolitana.

O olhar atento do festival às fracturas e transformações da contemporaneidade refletiu-se de forma exemplar nos prémios transversais. Promised Spaces, de Ivan Marković, arrebatou o Prémio Revelação pela exploração incisiva das divisões socioeconômicas através de uma fotografia notável, partilhando o protagonismo da secção com a Menção Honrosa a An Incomplete Calendar, de Sanaz Sohrabi, que deixou no ar a inquietação poética sobre a quem pertence o ontem. No confronto com o presente do trabalho, Sometimes Sadness, Sometimes Rebellion, de María Aparicio, venceu o Prémio Lugares de Trabalho Seguros e Saudáveis por questionar o aqui e agora ancorado na materialidade do real. Destaque maior para a consagração de Chronicle of Tiredness, de Natalia Marín, como Melhor Curta-Metragem, um filme que lê a história do progresso a desmoronar-se através dos pavimentos gastos e fissuras urbanas, garantindo uma pré-nomeação para os Óscares da Academia. A ligação afetiva com as salas traduziu-se ainda nos prémios do público, que distinguiram Os Continuadores da Revolução, de Pedro Neves, e Casa do Artista, Não é Permitido Envelhecer, de Solveig Nordlund.

Promised Spaces, de Ivan Marković

Porque o Doclisboa é também a casa onde se respira o cinema que ainda está por vir, o espaço Nebulae encerrou mais uma edição reafirmando a sua missão de criar redes de colaboração entre cineastas e produtores de todo o mundo. O júri composto por John Torres, Leonor Noivo e Tyler Wilson atribuiu oito galardões a projetos em desenvolvimento. Rosa Brillante, de Lucila Podestá, recebeu o Prémio DAE de Desenvolvimento do Talento, enquanto The Empire, de Dimitra Babadima, foi distinguido com o Prémio ZagrebDoxPro Slow Pitch. A investigação das formas visuais destacou-se no Prémio DAFilms para Atlas of Natural Spectra, de Franco Palazzo e Ile Dell’Unti, e no Prémio de Distribuição Agência Freak para Metamorphosis of the Same: The Mirror of Water, de Diego Acosta Hernández. A representação nacional nos projetos encontrou eco no Prémio DMix Collective atribuído a Borralha, de Vasco Monteiro. O leque de futuros filmes completa-se com as distinções a Exoticas, de Mariana Castiñeiras, com o Prémio LABED / Pompeu Fabra, The Best Virgin, de Miguel Ángel Fajardo, com o Prémio Escola das Artes da Universidade Católica Portuguesa, e Choosing to Be Landscape, de Mercedes Moncada, que recebeu o Prémio RTP para Melhor Projecto em Fase de Montagem.

Este pulsar do festival estendeu-se muito para lá dos debates sérios das salas de cinema das conexões no coffee break . Durante mais de uma semana, foi sempre com a roda no ar graças ao Doc♥Beat, que nos reanimou, nas noites e noites depois de um dia inteiro de cinema e trabalho, lá fomos nós dar um pezinho de dança, é assim que se começa a noite na Galeria Zé dos Bois (ZDB), no Bairro Alto, o Meeting Point oficial ao longo de todo o festival,onde se pode falar directamente com os Realizadores, programadores, espectadores, voluntários, todos juntos no mesmo sítio, a beber um copito ou outro, pela noite a dentro. Uma verdadeira dádiva, estas festas que começaram a 15 de outubro no Bar A Barraca, na Freguesia de São Vicente, com a Festa de Abertura comandada por Bruno Brites numa travessia contagiante de indie, dance, disco e electro arab.

Sempre com entrada livre no Bar A Barraca e com prolongamento nas after-parties até às quatro da manhã no mítico clube Incógnito, a música continuou a dialogar com os caminhos do cinema. A noite É Nha Balila! dando-nos fragmentos de memória e ecos da música cabo-verdiana. 

No 23 de outubro, a dupla Shuggah Lickurs guiou o público pelo O vendaval Kate Bush, uma viagem de art rock e pop  alternando entre os hits de 1980 e 1990. A barraca abanou na noite: A pop portuguesa está a dar cabo de mim, onde a dupla de DJ Trailer Park Noise que nos trouxe a bordo nesta Vida de Marinheiro. O ritmo e a liberdade brasileira tiveram o seu momento de celebração em Elza, mulher do fim do mundo, com DJ Cigarra a homenagear a voz inesquecível e a reinvenção constante de Elza Soares. A grande celebração de encerramento, a 24 de outubro, como manda a tradição, reuniu a equipa inteira do Doclisboa a partilhar a sua seleção musical com todos, despedindo o Doc♥Beat pela noite fora, entre abraços de um até já de novos amigos de voluntários que que nestes dias viveram para o festival Documentário, por toda a equipa incansável de Helder Beja, diz-se então um até já.

Mas, festa do cinema não se extingue com o apagar das luzes na Culturgest, temos o Bonús ainda, entre os dias 26 e 28 de outubro, o Cinema Ideal acolhe as sessões de reposição das obras premiadas, havendo ainda uma sessão especial de Povo e Poder na Culturgest a 30 de outubro e a continuidade da retrospectiva dedicada a Lino Brocka na Cinemateca Portuguesa. Fica a promessa e a certeza de que a 25.ª edição do festival já tem regresso marcado entre 14 e 24 de outubro de 2027.

Vemos-nos em Outubro, nós e Lisboa inteira.

PARTILHA