Os The Avalanches sempre foram especialistas em transformar pedaços da cultura pop em colagens geniais, como se fosse um mural de colagens de azulejos partidos. Seis anos depois do último registo, o trio australiano voltou com No Bad Memories, um monstro de 31 faixas que pega nas nossas memórias de infância e nos slogans publicitários que ficaram gravadas no inconsciente para os transformar em pop nostálgica.
O conceito é tão ambicioso quanto insólito e que passa por utilizar velhos jingles, anúncios de televisão e ruídos digitais de aparelhos obsoletos (com a ajuda do artista do ruído Ryoji Ikeda) ao lado dos habituais ritmos de soul, easy listening e electrónica. E aqui ouvimos interlúdios como “Logoland” ou “Xerox Altalink B8055” funcionando como pequenas pausas de transmissão entre canções ótimas.
Nas faixas principais, o álbum ganha uma vida contagiante. “Together” abre as hostes num ritmo house incansável com Jessy Lanza e Nikki Nair, enquanto “Every Single Weekend”, com Jamie xx, entrega aquela energia de festa que nunca acaba. Há espaço para o lado mais calmo e expansivo em “Blue Shadows” com Karen O, para o brilho solar de “All The Time In The World” com Rivers Cuomo e Vegyn, e até para surpresas como Carly Simon em “One More Fantasy” ou a voz inconfundível de Panda Bear em “Highfield”.
Pelo meio, destacam-se ainda a produção impecável do single “Far Away” e a energia irresistível de “Magic Wand”, com Barry Can’t Swim. Na reta final, a colaboração com o lendário Haruomi Hosono em “The Pavements Light” fecha a viagem com uma serenidade quase mágica.
Nem tudo é, no entanto, perfeito já que a enorme quantidade de interlúdios pode testar a paciência de quem procura um alinhamento mais direto. Ainda assim, quase trinta anos após a estreia, os The Avalanches continuam a soar a algo único no panorama musical.




