A história é a de sempre. Morre o pai, a herança vai toda para o meio-irmão, e Elinor e Marianne, com a mãe e a irmã mais nova, acabam numa casa de campo modesta, onde o coração e a falta de dinheiro mandam nas decisões. Uma guarda tudo para si, a outra não guarda nada. O filme segue o romance de perto, a realizadora Georgia Oakley mantém o contexto histórico e as desigualdades da época bem à frente, o que dá peso a uma história que muitas adaptações tratam como simples cenário.
Onde se afasta mesmo da versão de Ang Lee é na luz. A versão de 1995 era solar e de verdes frescos. Esta é feita de sépia, carvalho, amarelos de vela e sombras compridas, com a fotografia de Arnaud Potier. Há quem veja nela uma prima do Orgulho e Preconceito de Joe Wright, no mesmo ar arejado e ligeiramente melancólico. É bonita e muito coerente, ainda que por vezes pareça mais televisão de luxo do que cinema, como alguém notou.
No elenco, Daisy Edgar-Jones tem o papel mais ingrato, o da contenção. Elinor é a irmã que sofre por dentro, e alguns críticos acham que ela se apaga na própria história até ao clímax. Quem rouba o filme é Esmé Creed-Miles, uma Marianne que oscila entre o amuo e o grito, sem medo de ser desconfortável. George MacKay, Caitríona Balfe e Fiona Shaw dão sólido apoio. É aqui que a comparação dói. O elenco de 1995 tinha Emma Thompson, Kate Winslet, Alan Rickman e Hugh Grant, e a química e o humor faziam o resto. Em 2026 há bons atores, mas falta aquela faísca que faz rir e chorar na mesma cena.
A receção do filme tem sido dividida, e percebe-se porquê. Uns acham que Oakley e Reid carregam tanto no contraste entre sensatez e sensibilidade que ambas ficam quase farsa. Outros acham o filme encantador e belo, como deve ser. Eu fico no meio. É um filme que sabe o que quer, é elegante, respeita o livro e tem uma Marianne memorável. Mas é tão cuidado e tão discreto que raramente se atreve a magoar-nos como Austen sabe.