De mochila às costas e cheia de tinta em todas as mãos e os pés, lá vai a Vero bem carregada a caminho do tão estimado Caracol do que é quase casa do coletivo Yes You Can Spray. Chegaram no sábado à tarde onde se começou a preparar a parede e sim, cobriram-se obras bonitas, de edições anteriores nomeadamente a do You are not alone, custou, confessa Vero, mas agora como tudo na vida fez-se espaço para uma camada fresca uma nova etapa, um verdadeiro lavar as lágrimas e sentir o amor que vem das paredes quase como que um abraço.
O que começou por ser pensado como um fundo amarelo acabou com um tom ligeiramente esverdeado. No domingo bem cedo, o ponto de encontro foi ao fundo das escadas: o material foi subindo mão a mão, montou-se uma pequena “ feira de arte urbana” para apoiar quem participava uma pequena banquinha onde a colectiva já como de costume monta para todos terem uma mesinha com comidas e bebidas para aguentarem todo o esforço físico que é pintar, deu-se início a mais um capítulo na história da cidade mas desta vez com mais de 28 artistas, Writers de graffiti como Amor, Pear, Creyz, Magus, Jay-M, Moami, Poker e Fled13bombingart juntaram-se à festa, mas a eles somaram-se também Utopia, Fred Aranha, Observ, Fétosz, Natê, Out Iam, Muka.Ame, Kike, Bree, Rita Grancho, Lixsan, Flix, Nayara Black.es, Psy, Gabriel Hüne, G’Colors, TNCNV, LRR, Evilove, Marta Martins e Urtiga. Ao todo, 28 artistas vindos de todos os cantos do mundo, de Portugal à Venezuela, do Brasil à França, passando pela Argentina, Colômbia, Peru, EUA e Bélgica, com idades compreendidas entre os 17 e os 49 anos responderam todos sem hesitar ao open call.
Cada um destes criadores foi desafiado a partilhar a sua frase de “bem-estar”, trazendo para o centro do debate a saúde mental. É fascinante perceber as diferentes formas de olhar para o mundo: enquanto uns optaram por um clássico “carpe diem” ou por um motivacional “faz o que amas”, outros preferiram abraçar os percalços da vida como parte inevitável do caminho, com frases como “Não há árvore no mundo que o vento não tenha balançado”, “Cada um sabe a dor e a delícia de ser o que é”, “isto também passará” e muitas outras que ficaram gravadas nas paredes e na memória de quem passou.
A arte de imortalizar momentos – Jan o fotógrafo – e a magia de nos vermos uns aos outros
Nesta edição sentiu-se uma nostalgia crua e bonita a pairar no ar. O ambiente no Caracol trazia a memória do tempo que passa, das camadas de tinta que se cobrem, mas também do consolo que é estarmos acompanhados. Se essa atmosfera de partilha e cumplicidade ficou guardada para sempre, devemo-lo ao Jan (@rebelationavenue), autor de toda a cobertura fotográfica do evento (cujo registo completo pode ser visto na sua galeria no Pixieset).
Sem o Jan no terreno, com o seu olhar atento e sensível, não teríamos estas imagens incríveis que captam a verdadeira essência do jam (deste e todos os outros jams workshops em que aparece) os abraços no topo das escadas, o foco nos traços, as latas no chão e o cansaço bom no final do dia.
O trabalho dele lembra-nos o quanto precisamos, honestamente, uns dos outros. A arte urbana não se faz apenas de quem segura o spray ou o pincel; faz-se de quem documenta também, de quem cuida e de quem garante que a mensagem ultrapassa os muros da cidade para os nossos telefones, tablets e computadores.
Como destaca Out iam, uma das artistas presentes, organizar estas jams é sempre um desafio gigante pela ausência total de subsídios ou apoios institucionais. Contudo, a força da causa fala sempre mais alto. A saúde mental e a prevenção do suicídio moveram a montanha: foi emocionante ver tanta gente unida, com estilos tão distintos e únicos, a pintar em onde nos podiamos ver uns aos outros, durante o dia, falar sorrir partilhar tinta entre risotas e muito amor foram pintando caracol a fora.
A parte mais bonita e nostálgica de pintarem juntos foi a própria dinâmica do Caracol da Graça. As escadinhas funcionam como um anfiteatro natural onde os artistas se conseguem ver uns aos outros enquanto pintam, do início do dia até ao cair da noite. Este espaço, que o Yes You Can Spray acolhe e dinamiza com tanta dedicação, cria uma atmosfera profunda tanto para quem pinta como para quem assiste. Pôr este mural vivo envolveu um trabalho árduo de produção no terreno liderado pela Vero, e com alguma energia de JoJo Stickers que, mesmo à distância, esteve presente na iniciativa ao fazer o cartaz e ajudando no que podia. Desta vez, a intervenção abriu sob as premissas “Estamos juntos” / “We are together” . Para lá dos amigos que por ali passaram, ouviram-se histórias profundas e a partilhas dolorosas histórias de que muitos dos artistas ali presentes também já perderam alguém querido, por isso é que é com grande urgência que estes murais de saúde mental e prevenção para o suicidio são feitos, pelo menos uma vez por ano.
Para quem não conhece, o Yes You Can Spray (YYC.S) nasceu há quase 15 anos em Lisboa como um coletivo de arte urbana e evoluiu até se tornar numa plataforma cultural de referência. O seu trabalho posiciona-se exatamente no cruzamento entre o espaço público, a comunidade e a criatividade. Atuando como mediadores culturais, investigadores e artistas, dedicam-se ao desenvolvimento urbano através da curadoria de murais e de dinâmicas de placemaking.
A filosofia é direta e sem rodeios: 100% autossustentado, zero subsídios estatais e zero investidores privados. Todo o trabalho, desde as visitas guiadas a pé com a Lisbon Street Art Tours, aos workshops de graffiti e às intervenções no espaço público, serve para financiar projetos comunitários como este. A abordagem é ética, inclusiva e focada no impacto real. O importante é o porquê de algo ir parar a um muro, e não apenas o seu aspeto estético.
“A cultura escreve-se nas paredes. Nós somos apenas quem segura nas latas e nos pincéis.”
— J. Armstrong
O Caracol da Graça é o seu quartel-general afetivo. Desde 2018 que o coletivo “ocupa” este espaço de forma autónoma,sempre com a permissão da Camera, é claro transformando o que costumava ser uma batalha constante de tags num território neutro de criação artística, servindo de ponte agora então entre a cultura do graffiti puro e a arte urbana contemporânea.
Numa cidade que muda tão rápido, o Caracol precisa de paredes que continuem a lembrar, a responder e a manter a conversa humana viva.
A semente desta paint jam em particular começou a ser plantada há cerca de dois anos, quando JoJo Stickers convidou o coletivo a associar-se ao @youarenotalonemurals (YANA). Nascido em Nova Iorque, o YANA é um projeto de arte pública sem fins lucrativos desenhado para quebrar o estigma em torno da saúde mental através da arte comunitária.
Juntar 28 artistas com linguagens tão opostas podia ser caótico, mas aconteceu o oposto: em vez de competirem por espaço, os artistas sobrepuseram camadas e cores até criarem um diálogo contínuo. Adotou-se intencionalmente a paleta restrita do YANA: amarelo, branco, preto e cinzento. A limitação de cores força a honestidade, sem grande variedade cromática onde se esconder, sobram o contraste e a verdade do tema. Afinal, a saúde mental vive deste mesmo contraste entre a luz e a sombra, o leve e o pesado o passado e o futuro.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde, cerca de 1 em cada 7 pessoas no mundo vive com um transtorno mental. Pode ser a pessoa ao nosso lado no autocarro, na fila do café ou no metro. Na maioria das vezes, ninguém nota. É exatamente esse silêncio que esta intervenção no Caracol veio interromper.
Mais do que criar um mural bonito por uma boa causa, este projeto cria ferramentas reais de contacto. Na edição passada um dos elementos instalados no local foi um simples frasco onde os transeuntes podiam deixar as suas maiores preocupações escritas em papel. Ler aqueles papéis é ler a vulnerabilidade humana: desde receios globais com guerras e alterações climáticas, a desabafos íntimos como “tenho medo de não passar tempo suficiente com a minha família”. Noutro momento, um cidadão em situação de sem-abrigo que dormia no parque próximo aproximou-se da equipa no final do dia para agradecer, dizendo que ver aquela pintura lhe tinha dado um motivo para acordar de manhã.
Um mural no espaço público não explica o sentimento; ele segura o espaço para que ele possa existir. Dá permissão para notar, para perguntar e para admitir que todos nós lhes damos resposta à nossa maneira.
O Yes You Can Spray quer continuar a fazer estes jams. O objetivo passa por consolidar um programa anual e contínuo focado na saúde mental, onde a arte nas paredes seja acompanhada por ações diretas na rua: desde sessões de meditação guiada, caminhadas pela cidade, encontros de sketching urbano, tardes de croché comunitário até à criação de murais participativos.
Sem barreiras, sem listas de espera e sem portas fechadas, o Caracol da Graça provou mais uma vez que a arte pública — e a comunidade de abraços, tintas e lentes que a rodeia continua a ser o meio mais honesto de lembrar a quem passa: não estás sozinho estamos juntos, we are together






























































