Para começarmos muitíssimo bem o mês, foi ontem, no primeiro dia de novembro, que o Coliseu dos Recreios abriu as portas a uma das vozes mais reconhecidas do folk-indie contemporâneo. José González voltou a Portugal para apresentar o seu mais recente álbum, Against the Dying of the Light — projeto lançado em março deste ano, depois de cinco anos sem música nova. No âmbito do Misty Fest, festival de música que se centra na proximidade musical e na magia da qualidade acústica, José González voltou a pisar o palco do Coliseu dos Recreios e deu início ao seu momento musical pouco depois das 21h, em Lisboa.
Num cenário simples, com duas guitarras e um microfone, o sueco de origens argentinas sobe ao palco pronto a embalar o público português, começando com “El Invento” — uma música em espanhol, cantada na nossa língua-irmã e na sua língua-mãe. Este início calmo prepara-nos para o decorrer do espetáculo que, conforme manda o seu repertório, ouviríamos em três idiomas. Tal como já tinha feito em Local Valley (2021), neste novo projeto José volta a cantar nas suas três línguas de eleição: inglês, espanhol e sueco.
A cada toque na guitarra, a audiência mostra-se entusiasmada, mas calma, respeitando o silêncio necessário num concerto tão centrado nas cordas. Depois de um tema íntimo e tranquilo, José González surpreende os seus fãs mais veteranos com um tema obrigatório dos seus concertos. Ao primeiro dedilhar, reconheço o inconfundível som de “Cycling Trivialities”, um dos momentos mais marcantes da noite para mim, já que reconheço que será para sempre a música que mais associo a este artista e para sempre pertencente à banda sonora de momentos importantes da minha vida pessoal. Para além de ser um dos temas obrigatórios, ajuda também a definir o ritmo do espetáculo a que nos entregamos: o dedilhar característico e a voz doce e calma, envoltos num lirismo poético a que José González já nos habituou. A poucos minutos de concerto, estamos já rendidos ao seu som único e à magia que só ele consegue criar com uma guitarra e um Coliseu inteiro a ouvi-lo.
Ao longo do espetáculo, o artista vai-nos oferecendo uma mistura de temas, numa seleção que cruza as suas músicas mais conhecidas e imprescindíveis com os trabalhos mais recentes. Dos já conhecidos “Crosses”, “Heartbeats”, “Teardrop” e “Stay Alive” aos novos “Etyd”, “Against the Dying of the Light” (que dá nome ao novo álbum), “A Perfect Storm”, “Gymnasten”, “U/Rawls Slöja” e “You and We” — ora em sueco, ora em inglês — a música vai-se ouvindo e o público vai-se mostrando vivo, ainda que respeitoso.
O desenho de luz é, tal como a sua sonoridade, simples, mas eficaz. A subtileza da iluminação de palco ajuda a criar o conforto e a proximidade entre artista e público: luzes sobre um homem e a sua guitarra e, ocasionalmente, um pano preto onde é projetada uma “Aurora Boreal” ou uma projeção de González, a branco. O próprio desenho de luz vem, então, reforçar a magia da simplicidade de José González — um homem a cantar para um Coliseu que o quer ouvir.
Já depois de interpretar muitas das suas músicas, partilha connosco que tinha sido um bom dia, durante o qual passeou pela cidade de Lisboa. Canta mais um tema e sai do palco. Na breve ausência do artista, o público faz-se realmente ouvir e volta a chamá-lo em força, com uma ovação de pé, muitas palmas e berros, e passos firmes que ecoam pelas paredes da sala.
Pouco depois, o público volta a irromper em aplausos quando José regressa ao palco e canta “Line of Fire”, tema original da sua banda Junip. Por esta altura, já vamos sentindo aproximar-se o fim do concerto e, como sempre, começamos a fazer o luto de um bom momento ali partilhado. Antes de nos despedirmos, volta a cantar em espanhol, com o tema “Pajarito”, do novo álbum, onde assobia e imita pássaros, e encerra com “Blackbird”, dos Beatles, num último tema em inglês. A pedido do artista, o Coliseu acompanha-o e canta este tema universalmente conhecido. Despedimo-nos, assim, numa música de belíssima rendição da sua voz ternurenta e do seu olhar meigo. Agradece e acena, antes de abandonar o palco. E o mundo de cordas por ele ali criado volta a ser um Coliseu sozinho, rodeado de estranhos.
Este concerto foi, a meu ver, a definição exata da temática do Misty Fest: focar a atenção no artista, nas cordas e no puro sentimento da música, e na forma como nos toca — enquanto pessoas e enquanto apreciadores de música. Um olhar focado no acústico e na simplicidade universal de uma voz e de uma guitarra a tocar corações.
Para quem está pelo Porto, ou para aqueles que gostariam de repetir a experiência de ontem, podem hoje voltar a ver José González no Coliseu Porto Ageas, pelas 21h, ou continuar a acompanhar os concertos do Misty Fest, que promete reunir 26 artistas em 42 concertos, distribuídos por 11 salas de espetáculos pelo país até dezembro.