“La Bola Negra”: o filme do momento chega finalmente a Portugal

Depois de conquistar Cannes e encher salas em Espanha, La Bola Negra estreia esta semana em Portugal. Com Lorca no coração e um Oscar à vista, é um dos melhores filmes do ano.

Se há um filme que merece uma ida às salas de cinema esta semana, é este. La Bola Negra estreia nos cinemas portugueses depois de uma viagem que passou por Cannes, Toronto e San Sebastián e que deixou as salas espanholas cheias: foi um êxito de bilheteira, com recordes para um filme independente. Não é pouco para um melodrama de quase três horas, falado em espanhol, que se passa em três tempos diferentes.

O fenómeno começou em Cannes, onde o filme teve uma ovação de vários minutos e Javier Ambrossi e Javier Calvo, conhecidos como os Javis, partilharam o prémio de melhor realização com Pawel Pawlikowski. Seguiram-se o prémio do público em Toronto e o de San Sebastián. A Netflix percebeu logo o potencial e ganhou a corrida pelos direitos, mas fez algo inédito: antes de o filme chegar à plataforma, deu-lhe 46 dias de exclusivo nas salas, a janela mais longa da história da empresa. Quando um streamer aposta tanto no grande ecrã, é porque acredita que o filme pede mais do que um sofá.

E pede. A história parte de uma obra inacabada de Federico García Lorca, e o poeta paira sobre tudo, mais como atmosfera do que como citação. O filme acompanha três gerações de homens ligados pelo desejo, pela dor e pelo amor, num arco que vai do início do século XX à Guerra Civil e à atualidade. A grande proeza de Ambrossi e Calvo, com Alberto Conejero no argumento, é fazer estes três tempos dialogarem em vez de se limitarem a alternar. As histórias cruzam-se, ecoam-se, respondem umas às outras, e a cada regresso a uma época percebemos melhor o que a outra deixou por resolver. O título, que remete para o voto que exclui, ganha um peso quase físico à medida que o filme avança. É um melodrama assumido: emoção sem pudor, gestos grandes e uma melancolia lírica que nunca soa a pose.

No elenco, o nome que vamos ouvir muito nesta temporada é Guitarricadelafuente. O músico espanhol estreia-se como ator e abre o filme como Sebastián, um músico, com uma presença que dispensa truques. Tem a naturalidade de quem nunca aprendeu a “representar” e por isso convence, e a câmara adora-o. A corrida ao Oscar de melhor ator secundário não é exagero, e há outra frente em que pode brilhar: La Nieve, a canção que compôs com Raül Refree para o filme, está inscrita na categoria de melhor canção original. Se houver justiça, bate a concorrência, incluindo Taylor Swift e o tema de Toy Story 5. Ao lado dele estão Miguel Bernardeau, Carlos González, Milo Quifes, Lola Dueñas, Julio Torres e a americana Glenn Close, um elenco que percebe que o filme é coletivo.

E depois há Penélope Cruz. É um ano em alta para ela, com um papel de atriz secundária em The Invite, e a aparição breve em La Bola Negra que lhe podem render mais que uma nomeação. Poucos minutos, nenhum desperdiçado: é o tipo de intervenção que fica na memória muito depois de o genérico acabar.

Quanto ao Oscar, o caminho tem duas pistas. Na de melhor filme internacional, La Bola Negra é a escolha de Espanha, e parece destinado a vencer sem grande suspense. Na de melhor filme, o cenário é mais ambicioso: terá de medir forças com A Odisseia, com toda a máquina de um grande estúdio. Seria também, como já se escreve nos Estados Unidos, a primeira vitória da Netflix na categoria principal. Não é um sonho absurdo. Os filmes que ganham este prémio costumam ser os que mexem com as pessoas, e este definitivamente mexe.

O filme dura quase três horas, e há momentos em que o melodrama aperta mais do que precisava. Mas são defeitos de quem arrisca. Próprio para quem prefere mil vezes um filme que se excede por sentimento a um que se poupa por prudência. La Bola Negra é isso: grande, humano, doloroso, belo. Um dos melhores filmes do ano, e daqueles que pedem ser vistos no escuro, em sala, de coração aberto. Em Portugal, a oportunidade é esta semana. Não a deixem passar.

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