Com o anúncio de um hiato indefinido, os Bad//Dreems despedem-se (pelo menos por agora) com aquele que é o seu trabalho mais ambicioso e mordaz. Ultra Dundee, o quinto álbum da banda de Adelaide editado de forma independente em 2026, é uma espécie de “canto do cisne” que cimenta o grupo como um dos nomes mais subestimados do rock australiano. Formados num armazém de eletrodomésticos durante uma vaga de calor em 2012, Alex Cameron e Ben Marwe transformaram o tradicional “pub rock” numa arma de arremesso intelectual, forçando o ouvinte a encarar as partes mais feias da identidade nacional australiana através de guitarras viscerais e comentários sociais afiados.
O álbum, produzido por Dan Luscombe (colaborador de Amyl & The Sniffers), é uma sátira, feroz diga-se, à masculinidade tóxica e ao isolamento cultural. Na faixa-título, Marwe assume a pele de um conjunto de arquétipos violentos do cinema australiano — de Crocodile Dundee a Wolf Creek — num garage rock de olhos esbugalhados que esconde uma crítica profunda.
Mas o disco vai mais longe e funciona como uma uma rutura com a própria Austrália. Em temas como “January 26” e “Shadowland”, a banda lamenta abertamente o tratamento dado aos povos indígenas e a falta de empatia que permitiu ao racismo e à ignorância instalarem-se no psíquico moderno do país, especialmente após o fracasso do referendo sobre a Voz Indígena no Parlamento.
Do ponto de vista musical, Ultra Dundee mostra uma banda a expandir-se para além da sua zona de conforto. Se faixas como “Kangaroo Skull” mantêm a intensidade do punk ruidoso, outras como “Slaughterhouse ‘85” evocam uma sofisticação a fazer lembrar os tempos de David Bowie e Iggy Pop em Berlin. Há também espaço para o misticismo poético em “St. Francis of Andamooka”, que imagina o santo italiano como um louco a vaguear pelo deserto, e referências literárias em “Irish Airman”, inspirada em W.B. Yeats.
A despedida, marcada para uma digressão entre abril e maio de 2026, deixa um rasto de excelência artística. Ultra Dundee não é apenas um disco de rock para se ouvir com uma cerveja na mão. É mais um documento complexo sobre um país em conflito consigo próprio, executado por uma banda em pleno domínio das suas capacidades.
* fotografia de Mclean-Stephenson











