SE TEMOS DOIS OUVIDOS E UMA BOCA, POR ALGUMA RAZÃO É
Depois do mergulho conceptual e sintetizado de As Berlengas, o músico e produtor Benjamim está finalmente (porque pouco tempo parece muito) de volta com o seu quinto álbum de estúdio, Crónicas do Monte Zeus. Deixando para trás os ambientes mais solitários do registo anterior, Luís Nunes assume aqui o papel de um cronista das coisas humanas, olhando para um mundo em constante convulsão com gentileza, humor e a convicção profunda de que os afetos e o amor continuam a ser uma força revolucionária.
Crónicas do Monte Zeus é composto por oito canções lineares e depuradas, e coloca a palavra no centro da ação, transformando as rotinas e dores do quotidiano em poesia acessível. O single “Recursos Humanos” ilustra de forma ímpar essa dualidade ao equilibrar a crítica à mecânica corporativa com a celebração das ligações interpessoais. Depois em temas como “Os Dias do Nada”, transparece uma melancolia reflexiva sobre o cansaço moderno, enquanto que nas faixas “Amor Operário”, “Cola Quente” e “Medo de Perder” assenta-se em arranjos que nos aquecem, de guitarra acústica, que sublinham a proximidade e o aconchego das composições.
Uma das virtudes do disco reside no regresso ao formato de banda e na riqueza orgânica da sua produção, coassinada por ele próprio, Benjamim, e por João Correia. O álbum ganha ainda mais vida através da cumplicidade com músicos de relevo do panorama nacional, contando com os contributos de Bruno Pernadas, Margarida Campelo, Afonso Cabral e com um reencontro emocionante com Lena d’Água no tema “O Fim da Greve”. Sem tiques desnecessários e sem os artifícios dos fogos-de-artifício, o álbum valoriza com a interpretação vocal e ainda com a clareza das mensagens.
Crónicas do Monte Zeus é no fundo um disco simples, fácil de amar e de querer fazer-lhe compania a todo o instante. É um exercício de introspeção e, ao mesmo tempo, um abraço coletivo. E isso só é alcançável àqueles que chegaram ao Olímpo sem sequer darmos por isso.



