“Die My Love”: o filme que não quer ser amado

Eduardo Marino

Há filmes que entram em cena para agradar. Outros chegam para incomodar, mesmo que isso signifique afastar público, prémios e consenso. Die My Love pertence claramente à segunda categoria.

Realizado por Lynne Ramsay, Die My Love continua a expandir uma filmografia com uma linguagem tão reconhecível quanto divisiva. Quem estranhou We Need to Talk About Kevin ou se afastou do radicalismo sensorial de You Were Never Really Here dificilmente encontrará aqui uma porta de entrada mais suave. Ramsay não negocia com o espectador — e este filme também não.

A história acompanha uma mulher em plena depressão pós-parto, isolada numa relação conjugal em erosão, num ambiente rural que amplifica o desespero em vez de o apaziguar. É um retrato cru da maternidade como experiência desorganizadora, violenta e silenciosa, longe de qualquer idealização. O argumento, adaptado do romance de Ariana Harwicz, serve sobretudo como estrutura mínima para um mergulho emocional sem rede.

Nesse sentido, Die My Love é claramente um veículo para Jennifer Lawrence, que se entrega a uma das interpretações mais despidas e físicas da sua carreira. Aqui não há carisma calibrado nem arco redentor: há corpo, exaustão, raiva e um colapso progressivo mostrado sem filtros. Durante algum tempo, esta performance pareceu posicioná-la como candidata natural à temporada de prémios, mas a frieza com que o filme foi recebido nos festivais rapidamente arrefeceu essa narrativa — e as ausências nas principais nomeações confirmaram-no.

Robert Pattinson, no papel do marido, funciona mais como contraponto do que como verdadeiro centro dramático. O seu registo contido, quase apagado, é coerente com a proposta, mas deixa claro que este é um filme muito mais interessado na implosão interna da protagonista do que na dinâmica do casal. Lawrence ocupa o espaço todo — e o filme aceita isso sem resistência.

A recepção tem sido tudo menos calorosa. Estreado com reacções mornas no circuito de festivais e recebido com indiferença aquando do lançamento nos EUA, Die My Love acabou por ser um fracasso comercial, apesar do peso dos nomes envolvidos. Não ajuda o facto de Ramsay insistir num ritmo fragmentado, numa montagem sensorial e numa recusa quase total de explicação psicológica. Para muitos, isso soa a distância; para outros, é precisamente aí que o filme encontra a sua identidade.

Nos papéis secundários, LaKeith Stanfield, Sissy Spacek e Nick Nolte surgem em registos discretos mas eficazes, ajudando a compor um universo emocionalmente árido, onde ninguém parece verdadeiramente equipado para lidar com o sofrimento alheio. Não roubam a cena — nem é suposto.

Die My Love não quer ser consensual, nem reconfortante, nem “importante” no sentido clássico. É um filme que expõe a dor em bruto e segue em frente, mesmo sabendo que vai perder espectadores pelo caminho. Não vai agradar a toda a gente — provavelmente vai desagradar a muitos. Mas, para quem aceita entrar neste território desconfortável, é mais um capítulo coerente (e intransigente) na obra de uma realizadora que nunca quis ser universal.

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