O Olhar Feminino como Resistência e Vanguarda: As Realizadoras do Doclisboa 2026.

O Doclisboa 2026 destaca o cinema documental através do olhar de realizadoras consagradas e emergentes.

Aproximando-se da sua celebração de 25 anos, o DocLisboa reafirma-se como um espaço fundamental de resistência política, liberdade e descoberta estética, exibindo este ano 198 filmes de 51 países e rejeitando categoricamente as lógicas comerciais da indústria. No centro desta visão programática está um conjunto de mulheres realizadoras que assumem o cinema como gesto de auscultação do mundo, desconstrução de arquivos e reinvenção de linguagens.

Nesta edição de 2026, o festival junta criadoras consagradas e vozes emergentes de vanguarda através de múltiplos focos e secções: na Competição Internacional, Paula Gaitán apresenta a sua obra About Space and Depth, Rayna Teneva traz o ensaio político Geography Is Destiny, Isabelle Prim navega pelo tempo em Memoirs of a Badger e Kasia Mich (em co-realização com Dani Correia) assina Memórias de Uma Viagem pelo Alto Rio Negro. Na Competição Portuguesa, Inês Sapeta Dias expõe a impermanência em A casa é a ruína de uma casa. Paralelamente, o festival dedica um destaque especial à experimentação de Sophie Roger na secção “Riscos”, celebra o legado incontornável de Angela Ricci Lucchi (em dupla com Yervant Gianikian) através de uma sentida homenagem, e acolhe o olhar atento de Cláudia Ribeiro no filme The Morning Wind.

Competição Internacional: Cartografias do Tempo, da Memória e do Trabalho

Paula Gaitán — About Space and Depth

Competição Internacional | Brasil, 2026 — 138 min.

Paula Gaitán apresenta uma obra monumental que recusa categoricamente as amarras do documentário biográfico tradicional, assumindo-se antes como uma cartografia poética e afetiva sobre a materialidade do tempo e o ato da criação fílmica. Filmado como um longo e íntimo diálogo que se prolongou por quase uma década na cidade de Nova Iorque, Gaitán vira a sua câmara para o pioneiro do cinema experimental Ken Jacobs e para a sua companheira de vida e criação, Flo Jacobs. O filme transforma-se num espelho fascinante onde a realizadora brasileira reflete também a sua própria pesquisa estética e o seu deslumbramento pela vanguarda. Ao manipular os ritmos da montagem, as texturas visuais e as durações dos planos, Gaitán exige do espectador uma entrega total e imersiva. Há aqui um estudo profundo sobre a fisicalidade do próprio cinema e a fragilidade do envelhecimento dos corpos, sugerindo que a arte funciona como um reduto final de resistência à passagem implacável dos anos. O seu estilo sensorial e desprendido de narrativas rígidas partilha semelhanças estéticas com as experiências visuais de Sophie Roger, propondo uma experiência onde o espaço físico do estúdio se transforma num universo mental sem fronteiras e sem fim. Em estreia mundial no festival, a obra da já aclamada realizadora será exibida no dia 23 de outubro, às 10h30, na Sala 3 do Cinema São Jorge.

Dia 22 será possível ter uma conversa com Paula Gaitan 22 Out / 12:00 / 105’ FCSH – Auditório B3

Paula Gaitán conversará sobre esta riqueza criativa do universo sonoro enquanto zona de radicalidade.

Com o apoio de NOVA FCSH – UNL. Sessão conduzida em português, sem tradução. Entrada livre.

Mais conversas e mesas redondas do NEBULAE : 

Constelações

As Constelações são actividades dedicadas ao encontro entre cinema, pensamento e prática. Ancoradas nos filmes e nos programas do Festival, prolongam as questões que estes suscitam, promovendo a partilha entre cineastas, artistas, investigadores, profissionais e público. Dos processos de criação, circulação e preservação às políticas de arquivo, formas de representação e outros desafios do cinema contemporâneo, as Constelações convidam ao debate e ao cruzamento de diferentes práticas e perspectivas.

Programa completo  aqui 

Rayna Teneva — Geography Is Destiny

Competição Internacional | Alemanha / Bulgária / Áustria, 2026 — 69 min.

Com a sua nova obra, Rayna Teneva desloca o foco da interioridade artística para a urgência da observação sociopolítica, construindo um retrato cortante do trabalho contemporâneo e dos mecanismos de sobrevivência na Europa. A realizadora regressa ao seu país natal, mais concretamente a um vale búlgaro, para desconstruir um paradoxo geográfico e social violento: a coexistência impossível, na mesma terra, entre os idílicos campos de cultivo de rosas e a brutalidade metálica e pesada da fábrica de armamento Arsenal. Teneva foge do registo do documentário passivo ou estritamente observacional e confronta a realidade de frente, ao ponto de provocar uma alteração de papéis onde ela própria se implica fisicamente no processo que documenta. Ao expor a mecânica diária da mão-de-obra local que sustenta a cidade, a cineasta aborda as ramificações invisíveis das guerras e das políticas de migração que assolam o continente. A forma rigorosa como filma o território, entendendo a paisagem não como um pano de fundo, mas como um espaço que condena, molda e aprisiona o destino humano, dialoga diretamente com a visão de Inês Sapeta Dias; contudo, Teneva aplica essa noção de inevitabilidade ao plano político e económico, construindo um cinema de intervenção feroz. Esta notável estreia internacional de Teneva (cujo filme esteve também em exibição no Pavilhão Búlgaro da prestigiada Bienal de Veneza de 2026) , estando também na corrida para o prémio Healthy Workplaces Film Award, será apresentada no Doc Lisboa no dia 21 de outubro, às 19h00 sala 3 S.Jorge.

Isabelle Prim — Memoirs of a Badger

Competição Internacional | França, 2026 — 94 min.

A obra de Isabelle Prim estabelece um jogo audacioso e profundamente original entre o rigor do arquivo histórico e a especulação lúdica da ficção científica. Ao centrar a sua narrativa labiríntica na figura verídica de Abbé Breuil (o famoso especialista que revelou a arte pré-histórica ao mundo) e ao provocar uma colisão temporal insólita onde este arqueólogo comunica através de telefone com astronautas perdidos no futuro, Prim destrói por completo a linearidade clássica do cinema documental. O seu filme transforma-se num ensaio onírico, lúdico e melancólico sobre o instinto milenar de exploração que caracteriza a nossa espécie. A realizadora filma a descoberta não apenas como um triunfo humano, mas sobretudo como o prelúdio de uma possível destruição cósmica, questionando o sentido e o legado da nossa existência perante a ameaça do fim absoluto. Esta complexa sobreposição de tempos o ancestral rupestre e o futurista espacial  cria uma atmosfera enigmática onde o documento real se funde com a vertigem do imaginário, e que  imaginário. É fascinante notar como este gesto radical de resgatar o passado estabelece uma ponte conceptual com o trabalho de Angela Ricci Lucchi, ainda que Prim opta pela via da efabulação e da poesia especulativa em vez da análise puramente política do filme. 

A sessão deste filme, em estreia internacional absoluta, ocorre no dia 22 de outubro, pelas 14h00 Sala 3 ,  S.Jorge.

Kasia Mich — Memórias de Uma Viagem pelo Alto Rio Negro

Competição Internacional | Brasil, 2026 71 min. (co-realização com Dani Correia)

Kasia Mich, numa co-realização com Dani Correia, constrói uma viagem de imersão densa na herança oral e na resistência existencial e cultural do povo indígena Ye’pã Mahsã. O seu filme rejeita liminarmente o didatismo etnográfico, preferindo antes respirar ao ritmo da própria comunidade, acompanhando os anciões pelos rios sinuosos, como o Tiquié e o Uaupés, no coração do território amazónico. O trabalho de Mich destaca-se pelo seu extremo e detalhado rigor sonoro e por uma montagem fluida que não procura a continuidade lógica, mas sim emular o fluxo difuso e onírico da própria memória humana. A câmara adota uma postura ética de escuta e reverência, onde os saberes ancestrais, a mitologia e a vida prática se entrelaçam de forma inseparável. Ao evocar a espiritualidade profunda de um território constantemente ameaçado pelo apagamento, a cineasta partilha com Paula Gaitán a rara capacidade de utilizar a abstração, o detalhe e a cadência lenta para transportar o espectador para uma outra dimensão do tempo e do espaço, transformando a floresta numa biblioteca viva. 

Este documento sensorial irrepetível será exibido no dia 17 de outubro, às 19h00 no cinema S.Jorge Sala 3.

Competição Portuguesa e Secções Paralelas: A Escala, o Arquivo e a Poesia Visual

Inês Sapeta Dias — A casa é a ruína de uma casa

Competição Portuguesa | Portugal, 2026 31 min.

Inserida na Competição Portuguesa, Inês Sapeta Dias apresenta uma curta-metragem de uma imensa tensão contida, trabalhando magistralmente a relação de escala e de poder entre o efémero esforço humano e a imortalidade do poder telúrico. Ao observar com minúcia uma habitação centenária construída no interior insólito da cratera de um gigantesco vulcão açoriano, a realizadora reduz a condição humana e o seu sentido de permanência à sua mais absoluta fragilidade. Sapeta Dias elabora um trabalho exímio e austero de composição visual e paisagística, onde o isolamento silencioso e familiar da pequena casa contrasta a cada segundo com a fúria latente, surda e incontrolável das forças geológicas: a terra, o vento, o mar e o abismo. O documentário desdobra-se como uma meditação filosófica sobre a nossa impermanência e sobre a aceitação antecipada da ruína, sugerindo que tudo o que construímos está inevitavelmente destinado a ser reclamado pela natureza. Se Teneva demonstra como as estruturas económicas ditam a vivência das comunidades, Sapeta Dias prova que os caprichos brutais da crosta terrestre ditam regras de sobrevivência de forma ainda mais ditatorial e primitiva. Uma produção apoiada pela Terratreme, a exibição da obra afirma Sapeta Dias como uma das presenças de relevo na vitalidade do cinema nacional celebrado nesta edição do festival, que tem lugar dia 19 Out / 19:00 / 70’  no Cinema São Jorge – Sala M. Oliveira  e dia 21 Out / 21:45 / 70’ no Cinema Ideal 

Sophie Roger

Foco de Vanguarda | Secção “Riscos”

A presença consolidada do trabalho de Sophie Roger sublinha de forma contundente a aposta estrutural do festival na defesa das correntes vanguardistas e nas narrativas que recusam lógicas tradicionais. A cineasta trabalha o dispositivo cinematográfico como se de um pincel de sensações orgânicas se tratasse, quimicamente e plasticamente, privilegiando frequentemente a indefinição, o ruído visual, as sobreposições poéticas e a tactilidade da imagem em detrimento da imediata clareza argumentativa. O seu cinema requer uma disponibilidade perceptiva quase meditativa por parte do espectador, desafiando o público a libertar-se da necessidade ansiosa de compreensão racional e linear. Roger aproxima-se dos objetos, das luzes tremeluzentes, das sombras que dançam no escuro e da cadência do respirar das personagens, desconstruindo a imagem física até alcançar a sua essência emocional mais pura. No quadro de um festival que defende a reinvenção constante e a potência da imaginação, o seu percurso funciona como um laboratório contínuo, onde partilha claramente com cineastas como Paula Gaitán e Kasia Mich a vontade irrevogável de libertar a câmara da ditadura do concreto. Destacada pela própria organização como uma das grandes referências ao lado de nomes como Jia Zhangke ou Denis Côté, a realizadora vê a sua obra ocupar uma posição de enorme destaque na secção vanguardista do evento.

Angela Ricci Lucchi

Homenagem Retrospetiva (com Yervant Gianikian)

A homenagem fundamental prestada a Angela Ricci Lucchi (em conjunto com a menção a Yervant Gianikian) recorda de forma imperativa o legado épico daquela que é uma das duplas mais politicamente urgentes da arqueologia cinematográfica contemporânea.

Ao longo de décadas, Ricci Lucchi dedicou a sua vida a mergulhar no “arquivo morto” e nos abismos da amnésia europeia, resgatando e ressignificando rolos de película esquecidos, muitos deles registos de guerra, material amador ou propaganda da era colonial e do fascismo. O seu complexo processo autoral não se baseia em meramente exibir este material,editando e narrando sem alma, mas sim num ato agressivo de intervenção plástica: alterar a velocidade fotograma a fotograma, refilmar os detalhes perdidos no tempo e colorir quimicamente as feridas impressas no celuloide de cada um.

Este método retarda a violência da História para que o espectador seja forçado a testemunhá-la na íntegra, escavando o trauma real com uma precisão cirúrgica. Ao contrário da abordagem especulativa de Isabelle Prim perante o registo científico, Ricci Lucchi lida frontalmente com a ferida real da humanidade, usando as imagens originais não como nostalgia, mas como evidências irrefutáveis do bárbaro.

O reconhecimento da dupla este ano foca-se, em especial, no programa dedicado a cinema e história, com destaque para a exibição de “Oh! uomo”, uma obra crucial da sua trilogia focada na Primeira Guerra Mundial.

Cláudia Ribeiro — The Morning Wind

Programação Geral / Focos

O trabalho delicado e poético de Cláudia Ribeiro, presente na órbita do festival com The Morning Wind, afirma a beleza contida no documentário de observação silenciosa e no resgate do que é aparentemente efémero. O estilo de Ribeiro distingue-se, acima de tudo, por uma gestão excecional e generosa da paciência da câmara; a realizadora tem o dom de aguardar discretamente pelos momentos em que uma subtil alteração da luz matinal transforma por completo a densidade de um ambiente, revelando a complexidade dos sujeitos que capta sem necessidade de diálogos explicativos ou grandes artifícios formais. Num contraste belíssimo e evidente com as escalas cataclísmicas manipuladas por Inês Sapeta Dias ou a conflitualidade sociopolítica aguda abordada por Rayna Teneva, Ribeiro escolhe fechar o foco na delicadeza quase invisível da existência quotidiana. A sua lente funciona como um fio condutor de empatia absoluta, tecendo ligações frágeis e belas entre o público e o dia a dia, provando-nos que, muitas vezes, as mais ricas revelações documentais encontram-se nas pausas não coreografadas da vida diária. Em verdadeira afirmação autoral, a obra celebra a sua estreia mundial no festival e conquistou o seu espaço entre os filmes selecionados para o conceituado galardão Healthy Workplaces Film Award.

Entre todas as mulheres destacadas, existe uma lista muito maior, felizmente a lista de realizadoras está cada vez mais a aumentar, ano após ano, realmente começa-se a ver uma mudança no cinema, pelo menos, no mundo do documentário.

Não percam nenhuma sessão. Para mais informações de todo o programa clique aqui.

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