“Em Outubro, o mundo inteiro cabe em Lisboa.” o slogan desde as suas primeiras edições nos anos 2000 nunca foi tão verdade como agora, que comunicamos tanto e, no entanto, o mundo parece mergulhado num silêncio ensurdecedor perante as histórias reais, que realmente importam, entre guerras, a importância dos influencers e da social media, dos miúdos agarrados ao telemóvel quer seja com jogos ou Tik Toks, a lista é infinita.
Mas onde a sociedade se cala, o cinema documental ergue a voz. É com este espírito de urgência e escuta que nos preparamos para mais uma edição do Doclisboa.

Carpetes encarnadas, corrimões dourados, sabemos onde estamos
Um regresso a casa, para muitos, os voluntários como eu que anos após ano não perdem uma oportunidade para fazer parte desta maravilhosa equipa que dia após dia noite após noite sentem o grande amor pelo documentário em todos os recantos de todas as salas, quer seja na produção, no Welcome desk no frente de sala, no ir buscar os realizadores ao aeroporto, no preparar lunch boxes,no integrar a equipa de alunos da Etic no festival,alunos esses que correm mundos e fundos para captar a melhor imagem de cada sessão, os highlights do dia sempre com boa disposição e vontade de trabalhar, quer seja logo na primeira sessão do dia, ou nas conversas, ou no cafézinho ou no cigarro que se partilha a porta do são Jorge enquanto se bebe uma imperial e come-se um croquet, tanto o público como a equipa partilham este sentimento, ansiosos para que tudo comece, o abrir portas de tantas mundos e narrativas que só mesmo o documentário faz justiça às histórias, o cru da vida, e desta vez, a decorrer e a não perder de 15 a 25 de outubro de 2026, a 24.ª edição volta a ocupar as moradas já habituais da capital, na Culturgest, Cinema São Jorge, Cinemateca Portuguesa, Cinema Ideal e, em estreia, o Centro de Arte Moderna da Gulbenkian (CAM).
Antes de mergulharmos no maravilhoso programa deste ano, que conta com 198 filmes de 51 países, é preciso olhar para trás para perceber o peso do ecrã que temos à nossa frente.
Se outros festivais pelo mundo disputam a coroa dos números de bilheteira, o Doclisboa posiciona-se, indiscutivelmente, num pódio global pela sua curadoria de vanguarda, coragem política e sofisticação estética que sempre esteve muito vincada.
Este não é apenas um festival; é uma paragem obrigatória para quem procura o cinema no seu estado mais puro, sentir a realidade através da lente.
A Matriz do Documentário: Varda, Watkins e as Grandes Passagens
Falar do Doclisboa é evocar memórias que nos arrepiam a pele, para quem assiste e para quem participa . Para muitos de nós, a recordação mais sagrada será sempre a presença luminosa da inigualável Agnès Varda. Vê-la partilhar a sua sabedoria presencialmente em Lisboa na 9º edição em 2011, o poder sentarmo-nos lado a lado, no Palácio das Galveias e partilhar umas palavras, um sonho, para muitos que fizeram parte da equipa e tiveram o privilégio da sua presença.
Nesse dia, o Grande Auditório estava completamente esgotado, a transbordar de cinéfilos, estudantes e realizadores. Quando Varda subiu ao palco com o seu inconfundível corte de cabelo bicolor, a sua estatura pequena e uma energia transbordante, a sala veio abaixo.
Ela não se comportou como uma “lenda viva” num pedestal distante; falava com o público com uma proximidade quase familiar, com a curiosidade e a vivacidade inocente.
A cineasta apresentou em estreia mundial um dos episódios da sua série de crónicas de viagem, intitulado Agnès de ci de là Varda. Curiosamente, esse segmento incluía passagens filmadas em Portugal, onde Varda registou conversas com o realizador Manoel de Oliveira.

A lista de ícones celebrados nestas salas é avassaladora. Tivemos a honra de assistir a retrospectivas integrais de Peter Watkins (o pioneiro do docudrama moderno com o seu visceral The War Game), descobrir a rebeldia da Checa Věra Chytilová, ou mergulhar no ativismo revolucionário de William Greaves. Foi também aqui que vimos a grandiosidade de Wang Bing, um dos maiores colossos do documentário chinês moderno, vencer a Competição Internacional com, Fathers and Sons, ou o nosso Joaquim Pinto a arrebatar o mesmo prémio com o inesquecível e dolorosamente belo : Lembra-me.
Os vencedores que Quebraram Fronteiras
Nas edições passadas, o júri do festival provou repetidamente que não tem medo da radicalidade do Tabu. Como esquecer o impacto da basca Arantza Santesteban, que com a sua obra política e pessoal 918 Noites (918 Gau) que venceu o Grande Prémio da Cidade de Lisboa? Ou a cineasta e artista visual mexicana Sofía Peypoch, galardoada por La Tierra Los Altares, onde cruza a sua história de sobrevivência com uma linguagem estético-sensorial: guiada por tons terrosos, poeira suspensa na luz e um negro denso que devora o ecrã, a câmara explora as texturas do solo e do silêncio, convertendo a paisagem desértica num altar vivo de memória e resistência.
O Doclisboa tem sido o megafone destas vozes vitais. Da França, vimos Isabel Pagliai vencer o prémio de Melhor Realização com Fantasy,; (foto da directora que ganhou o Médecins Sans Frontières – Prémio para Melhor Realização na Competição Internacional na edição de 2025 do Doclisboa, da Bielorrússia, Nikita Lavretski conquistou o prémio máximo com A Date in Minsk; e da Tailândia, Thunska Pansittivorakul foi premiado pelo seu híbrido experimental Santikhiri Sonata.
Destacam-se ainda os trabalhos premiados de Ian Soroka (EUA) com Greetings from Free Forests, de Ramiro Sonzini (Argentina) com The Night Is Fading Away, e da russa Masha Chernaya com The Shards. Há ainda que aplaudir o rasgo singular de realizadoras como Ebrû Avci (Turquia), premiada pela honestidade minimalista de Tell Me a Fairy Tale, e as celebradas Lucía Seles (Argentina) e Jen Debauche (Bélgica).


O Impacto do Documentário em Portugal
O Doclisboa é, em simultâneo, a grande montra do nosso olhar e a base que molda a nossa identidade cinematográfica. Mais do que um mero festival de cinema, afirmou-se ao longo dos anos como um ecossistema cultural indispensável desde os voluntários para a equipa oficial para as equipas de filmagens a documentar o festival, os fotógrafos, as jornalistas, os convidados os que vão as palestras, os fieis ao Nebulae, os cocktails, as after parties, todos conseguem sentir que é um espaço de liberdade, de debate crítico e resistência onde o cinema da realidade ganha espaço para respirar, desassossegar e transformar. É neste espaço que o público encontra uma janela privilegiada para o mundo, mas é também aqui que a cinematografia nacional descobre o seu espelho mais honesto e puro.
A história recente do festival confunde-se com a própria afirmação do documentário português no panorama internacional. Foi neste palco que vimos Tiago Afonso arrebatar os ecrãs com o cru e resistente Distopia, e onde a multipremiada dupla João Salaviza e Renée Nader Messora (a par do trabalho de exploração e memória de realizadoras como Rossana Torres) conquistou a Competição Portuguesa com as imersões territoriais e poéticas de Terra e Água Mãe.
Neste mesmo recinto de descoberta, Leonor Teles, hoje uma das nossas mais celebradas realizadoras, deu cartas cedo ao vencer o Prémio Escolas com Terra Franca, demonstrando como o festival funciona como uma rampa de lançamento vital para novas vozes. O Doclisboa validou ainda a sensibilidade estética de Maureen Fazendeiro no seu As Estações, o arrojo narrativo de Pedro Felipe Marques na longa-metragem Breeding Ground, e a destreza documental de Melanie Pereira, recentemente distinguida por As Melusinas à Margem do Rio. E, num registo de rebeldia punk que marcou indiscutivelmente o público, não podemos esquecer o impressionante e visceral trabalho de Maria Clara Escobar em Explode São Paulo.
Esta capacidade de projetar histórias locais com ressonância universal explica por que motivo o Doclisboa é tão importante para tanta gente. Para os realizadores, é um porto de abrigo onde a criação não está submetida às regras estritas do mercado comercial; para o público, é um espaço de reflexão coletiva que desafia preconceitos e aproxima realidades distantes. Manter e reforçar o festival do documentário em Portugal é um ato de preservação cultural e política fundamental para garantir a pluralidade do pensamento e a vivacidade artística do país num mundo cada vez mais saturado de narrativas rápidas e superficiais.
Nesta caminhada de renovação contínua, o festival ganha agora um novo fôlego com a integração de Hélder Beja na direção artística e equipa de programação do Doclisboa. Antigo diretor de programação do festival literário Rota das Letras em Macau, a sua experiência entre o Ocidente e a Ásia promete enriquecer o olhar cosmopolita e a abertura do festival a novas geografias.
O Futuro no Presente: A Edição de 2026
Agora em 2026, com 34 estreias mundiais pela frente, o festival propõe uma reflexão metalinguística: o cinema a interrogar-se a si mesmo. O arranque faz-se com a guerrilha conceptual de Edgar Pêra em Guerrilha no Asfalto (uma incursão pelas memórias das FP-25 cruzada com arquivos e inteligência artificial), e o encerramento abraça o mestre Alain Cavalier que, aos 95 anos, nos traz Thanks for Coming — um majestoso e derradeiro capítulo do seu cinema-diário.
Na Competição Portuguesa, aguardam-nos obras de uma enorme agudeza política e diversidade estética, cruzando veteranos como João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata com novos trabalhos de Inês Oliveira, Ico Costa, Pedro Neves e Manuel Mozos.
Pelas secções paralelas, as propostas revelam-se de uma força incontornável:
Riscos: O espaço para as formas abertas e experimentais convida cineastas como a francesa Sophie Roger e o filipino John Torres.
A arqueologia visual será celebrada numa justa homenagem aos icónicos Angela Ricci Lucchi e Yervant Gianikian, com o fecho da sua trilogia sobre a Iª Guerra Mundial em Oh! uomo.
A secção contará também com olhares de autores fundamentais como Mariano Llinás, Denis Côté, Lynne Sachs e Ben Russell e a lista continua.
Da Terra à Lua: Onde a História colide com o presente.
Das análises profundas de Miguel Antunes Ramos aos novos fascismos, à viagem interior e territorial de Jia Zhangke em Du Ling zhi ying (Torino Shadow). É também nesta secção que assistiremos, em sessão única, à despedida de Patricio Guzmán com o seu inédito Mi país imaginário.
“Knife: The Attempted Murder of Salman Rushdie de Alex Gibney, narra a recuperação física e emocional de Salman Rushdie após o ataque de 2022, quando um agressor armado com uma faca o esfaqueou, 33 anos depois de o Irão ter emitido uma fátua por causa de Os Versículos Satânicos e ter oferecido uma recompensa pela sua cabeça. Recorrendo a imagens inéditas da recuperação e do regresso à vida quotidiana e a excertos das obras de Rushdie, o filme cria um cenário onírico e poético que espelha a forma como ele encara a escrita como a sua própria “faca”, uma ferramenta para ripostar, reclamar a sua história e responder à violência com imaginação e arte.”
They’re Here de Laura Poitras, Rachel Lauren Mueller; “ Acompanha residentes anónimos de Minneapolis a fugir e a resistir à ocupação paramilitar da sua cidade. Na tradição do cinema distópico, tem como cenário uma paisagem invernal onde agentes mascarados raptam crianças. O ponto de partida de Forest Up in the Mountain é o assassinato do jovem mapuche Rafael Nahuel na Patagónia argentina. Com base em registos judiciais, documentos oficiais e arquivos forenses, o filme apresenta a floresta como testemunha e espaço de resistência, onde os vestígios de violência contra os indígenas falam para além do tribunal e abalam as narrativas oficiais.”
A urgência contemporânea marca presença no foco dedicado à Palestina, através dos essenciais arquivos resgatados e preservados por Monica Maurer e Aude Fourel, que farão questão de apresentar as obras ao público lisboeta.
Heart Beat & Verdes Anos: A música, as artes e as novas vozes não perdem o compasso. Desde a intimidade do centenário compositor György Kurtág, aos arquivos de Pina Bausch, passando por um merecido foco na família Trueba (Jonás e Fernando). O festival olha também para a frente com a descoberta de novos talentos nos Verdes Anos, o espaço de indústria Nebulae (este ano com a Grécia em destaque), e o contínuo projeto educativo abcDoc.
O Realizador convidado John Torres, que faz parte de um grupo de cineastas, juntamente com Khavn De La Cruz, Raya Martin e outros, que renovaram o cinema independente filipino os créditos finais de todos os textos são a descrição de uma comunidade. “Herdando uma tradição de independência e liberdade radicais de criadores como Ishmael Bernal, Mike de Leon e Kidlat Tahimik, Torres, desenvolveu um cinema distintamente seu,fragmentário e poro. Dias antes de emigrar, um detective de luto investiga duas irmãs ligadas a uma aplicação de navegação sinistra e dá por si a render -se lenta- mente às vozes invisíveis que controlam a cidade e à sua própria dor persistente. The Remotes reaviva o fascínio pela noite que tínhamos descoberto em Manila in the Claws of Light, de Lino Brocka, desta vez num mundo de automação,vigilância e violência difusa. A abertura poética de Torres insere, neste ambiente, que é retratado com os códigos da ficção científica e dos filmes policiais e assombrado pelo luto, uma reflexão comovente sobre a unidade e a perda.”
A Realizadora convidada Sophie Roger, que é uma cineasta de uma radicalidade de rara no cinema que hoje circula em festivais. “O seu cinema sensual, do mistério e do detalhe,do sussurro, avança por associações, desvios e descobertas, tendo como território central a amizade e o espanto partilhados com os seres que consigo vivem e criam. Um deles é Pierre Creton, cineasta convidado em 2024, com quem também partilha filmes. Outro é a cadela Lola,que a ressuscita se necessário e a leva a dançar. Uma obra rara, cuja aparente modéstia nasce de uma extraordinária confiança nas possibilidades do cinema.”














Os bilhetes estarão à venda desde 28 de setembro nas plataformas habituais e nas respectivas bilheterias. Enquanto houver Doclisboa ainda há esperança, de que realmente há quem queira,saber, há quem queira contar histórias que não ficarão perdidas no tempo, de 15 a 25 de outubro, as salas de Lisboa vão escutar. Nós, no Mente Cultural, estaremos mais uma vez na fila da frente, prontos para que o cinema nos volte a saciar.
Encontramo-nos lá?