Sondre Lerche regressa a Portugal em novembro para três concertos intimistas, em Lisboa, Aveiro e Arcos de Valdevez, onde apresentará Acrobats, o seu 11.º álbum de estúdio. Um disco sobre o amor, a esperança e a possibilidade de encontrar felicidade num mundo cada vez mais inquietante. À conversa por Zoom, Sondre Lerche é alguém que navega entre o humor, alguma autoironia e uma forma muito espontânea de falar sobre o seu próprio trabalho. De forma calorosa, descontraída mas também introspetiva, Lerche falou sobre a sua evolução enquanto compositor, a relação com as canções que escreveu ao longo dos anos e a liberdade de regressar ao palco apenas com a voz e a guitarra, diretamente da sua casa em Oslo. *
Mente Cultural: Este é um álbum onde exploras este contraste de encontrar o amor e a felicidade num mundo tão perturbador. A música pode ser um refúgio da realidade ou tem a responsabilidade de a confrontar?
Sondre Lerche: Acho que pode ser as duas coisas. É uma questão muito interessante, porque, para mim, fazer música é, antes de mais, uma forma de tentar compreender a minha própria experiência e existência. É uma maneira de perceber o mundo, mas também de tentar perceber-me a mim próprio. Porque é que vejo as coisas da forma como as vejo? Porque é que reajo de determinada maneira a certas situações? Acho que estas são perguntas que acabam por estar sempre presentes quando escrevo.
Sempre fui uma pessoa bastante romântica, provavelmente até mais do que gostaria de admitir (risos). Mas sinto que, com o passar dos anos, fiquei mais atento ao mundo à minha volta. Não consigo simplesmente desligar-me da realidade e escrever sobre o amor como se nada mais estivesse a acontecer. E, ao mesmo tempo, também não quero que a música seja apenas uma reação ao que está mal no mundo.
Há qualquer coisa de muito importante em preservar a capacidade de encontrar beleza, de nos apaixonarmos, de construirmos uma vida com alguém. Não acho que isso seja uma forma de ignorar a realidade. Pelo contrário, talvez seja precisamente uma forma de responder a ela. A música pode ser um lugar onde conseguimos processar tudo isso, onde podemos aceitar que existem sentimentos contraditórios e que todos eles fazem parte da nossa experiência enquanto seres humanos.
Mente Cultural: Portanto, de certa forma, é também sobre esperança?
Sondre Lerche: Absolutamente. Acho que a esperança está muito presente neste disco, embora não seja uma esperança ingénua. Não é aquela ideia de que tudo vai correr bem ou de que basta sermos positivos para resolver os problemas. Acho que é algo mais complexo do que isso.
Sinto-me numa fase da vida em que tenho a sorte de ter uma vida pessoal muito preenchida e de encontrar muita felicidade nas coisas do quotidiano, nas relações que construo e na pessoa com quem partilho a minha vida. E isso é algo que valorizo imenso. Mas, ao mesmo tempo, estou consciente de que essa felicidade existe num contexto muito mais vasto e que há muitas coisas terríveis a acontecer.
Por vezes, quase sentimos que não temos o direito de estar felizes quando olhamos para o mundo. Mas acho que isso é uma armadilha. Não podemos deixar de viver, de amar ou de procurar aquilo que nos faz bem. Talvez a esperança esteja precisamente aí: em continuarmos a acreditar nas pessoas, nas relações e na possibilidade de construir alguma coisa boa, mesmo quando tudo à nossa volta parece apontar noutra direção.




Mente Cultural: É como um ciclo que se completa?
Sondre Lerche: Sim, de certa forma. E é engraçado pensar nisso, porque quando comecei a escrever canções era muito mais novo e já estava bastante interessado nestas questões do amor, das relações e de todas as emoções que vêm associadas a isso.
Agora, tantos anos depois, continuo a escrever sobre muitas dessas coisas, mas a minha compreensão delas é completamente diferente. Não sou a mesma pessoa, obviamente. Vivi muitas experiências, cometi erros, aprendi algumas coisas e provavelmente continuo a cometer os mesmos erros de maneiras ligeiramente diferentes (risos).
Mas há uma espécie de continuidade. Talvez esteja a regressar a determinados temas com uma perspetiva diferente, mais consciente e mais generosa. Há coisas que, quando somos mais novos, nos parecem absolutamente definitivas e que, mais tarde, conseguimos olhar com algum distanciamento e até com carinho.
Por isso, sim, existe uma sensação de ciclo que se completa, mas não no sentido de voltar exatamente ao mesmo lugar. É mais como reconhecer alguma coisa que sempre esteve presente em mim e perceber que agora tenho outras ferramentas para lidar com ela.
Mente Cultural: Algo que vejo a acontecer muito hoje em dia é ver os músicos a escreverem sobre o que se está a passar no mundo, expondo as suas crenças políticas e problemas sociais. No teu caso, também abordas estes temas, mas mais num sentido pessoal e esperançoso?
Sondre Lerche: Sem dúvida. O mundo está, de facto, a atravessar um período muito estranho e difícil. E acho que seria quase impossível fazer um disco neste momento sem que essa realidade acabasse por entrar, de alguma maneira, nas canções.
No meu caso, talvez escreva coisas mais pessoais, mas isso não significa que não sejam políticas ou que estejam desligadas do que acontece à nossa volta. Acho que a forma como nos relacionamos uns com os outros, como tratamos as pessoas que amamos e como construímos a nossa vida em comunidade também tem uma dimensão política.
Não sinto necessariamente que tenha de escrever uma canção que fale diretamente sobre um acontecimento específico ou que tenha de explicar aquilo em que acredito. Mas também não quero fingir que vivo isolado numa pequena bolha onde só existem sentimentos positivos.
Há uma certa contradição em encontrar uma felicidade tão grande na vida pessoal enquanto assistimos a tanta violência, tanta divisão e tanta desumanidade. E essa contradição interessa-me muito. Acho que é possível escrever sobre coisas íntimas e, ao mesmo tempo, dizer algo sobre o mundo. Às vezes, até acho que essas canções podem ser mais poderosas precisamente porque não tentam explicar tudo.
Mente Cultural: Tens estado a falar do tal círculo que se completa, desde Faces Down até agora. Ao longo dos anos, a tua música tem navegado em diversos géneros, desde a exploração no jazz em Duper Sessions ou a energia rock de Phantom Punch. Sentes que a tua jornada tem sido de certa forma coerente ou vês mais como diferentes vidas musicais que vais tendo?
Sondre Lerche: Essa é uma pergunta muito boa! (risos)
Acho que, por vezes, sinto que vou vivendo algumas vidas musicais diferentes, mas de uma forma que acaba por fazer sentido. Há discos que parecem pertencer a momentos completamente distintos da minha vida, e há alturas em que estou muito interessado numa determinada linguagem musical e quero explorá-la até ao limite.
Nunca tive grande vontade de repetir exatamente aquilo que já fiz. Quando termino um disco, normalmente já estou interessado em descobrir outra coisa, outro método de trabalho ou outra maneira de abordar as canções. Por isso, olhando para a minha discografia, consigo perceber essas mudanças e essas diferentes fases.
Mas também acho que existe uma identidade que permanece. Talvez não seja tão evidente à primeira audição, porque os arranjos, os géneros e as sonoridades podem mudar bastante. No entanto, há qualquer coisa na forma como escrevo melodias, na maneira como abordo as letras e nos temas para os quais volto constantemente que estabelece uma ligação entre todos esses discos.
É engraçado porque, quando estou a fazer um álbum, não estou necessariamente a pensar na minha discografia ou em como ele se relaciona com os anteriores. Estou muito concentrado naquele momento. Mas, quando olho para trás, consigo perceber melhor as ligações. Talvez seja uma espécie de conversa comigo próprio ao longo de todos estes anos.




Mente Cultural: E consegues pensar numa ou duas canções que tenhas escrito numa determinada altura em que achavas que tinham um sentido, mas agora percebes que têm um significado completamente diferente?
Sondre Lerche: Sim, definitivamente. Acho que isso acontece com muitas canções, mas há algumas em que essa transformação é particularmente evidente.
Uma que me vem à cabeça é “Patience”. Quando a escrevi, estava num determinado lugar da minha vida e tinha uma ideia bastante específica daquilo que estava a tentar expressar. Mas, com o passar do tempo, comecei a perceber que talvez estivesse a escrever sobre outra coisa, algo que não tinha conseguido identificar completamente naquele momento.
E isso também acontece quando toco as canções ao vivo. Há qualquer coisa de muito interessante em observar a reação das pessoas e perceber que determinada música significa algo completamente diferente para elas. Às vezes, alguém vem ter comigo depois de um concerto e conta-me uma história pessoal associada a uma canção. E, de repente, começo a ouvi-la de outra maneira.
Acho que é uma das coisas mais bonitas de escrever música. No momento em que partilhas uma canção com outras pessoas, deixas de ter controlo absoluto sobre aquilo que ela significa. Passa a pertencer também às experiências delas. E isso acaba por transformar a tua própria relação com a música.
Mente Cultural: Então agora estás a apresentar Acrobats e já sabes que, daqui a alguns anos, o álbum pode significar algo diferente, mas agora, o que reflete o nome Acrobats? Reflete o desafio de balançar entre a vida e o amor ou significa algo diferente?
Sondre Lerche: Sim, acho que essa ideia de equilíbrio está muito presente. Para mim, o título tem muito a ver com a própria vida. Com a necessidade de manter diferentes coisas em equilíbrio, por vezes coisas que parecem completamente incompatíveis.
Quando penso em Acrobats, penso muito nesse contraste entre a felicidade e a instabilidade, entre aquilo que acontece na nossa vida pessoal e tudo aquilo que acontece no mundo exterior. Há momentos em que estamos a viver algo maravilhoso, em que nos sentimos muito felizes e seguros, mas basta olharmos à nossa volta para percebermos que essa segurança não é universal.
É também interessante pensar no disco anterior, Avatars of Love. Era um álbum muito expansivo, muito ambicioso, quase como se estivesse a tentar explorar todas as dimensões possíveis do amor. Neste novo disco, senti vontade de fazer algo diferente, de encontrar outra escala e outra abordagem. Queria que tivesse uma identidade própria.
Mas, no fundo, os dois discos estão relacionados. Acrobats é talvez uma forma diferente de olhar para algumas das mesmas questões, com outra experiência de vida e outra consciência do mundo.
E acho que o título também tem uma dimensão quase física. Estamos constantemente a tentar equilibrar-nos, a ajustar os movimentos, a evitar cair. Às vezes conseguimos, outras vezes não. Mas é isso que é a vida, não é?
Mente Cultural: Gravaste Acrobats com vários outros músicos e colaboradores, mas agora que vais tocá-lo ao vivo, a solo, o que muda em palco?
Sondre Lerche: Gravar este disco com tantos músicos excecionais foi uma experiência incrível. Trabalhei com pessoas com quem tenho uma relação muito especial e que admiro imenso. Gosto muito daquilo que acontece quando diferentes músicos trazem as suas ideias para uma canção e acabam por descobrir coisas que provavelmente eu nunca teria imaginado sozinho.
Mas também adoro estar em palco sozinho. São experiências muito diferentes e gosto genuinamente das duas.
Quando estou sozinho com a guitarra, sinto que regresso um pouco ao momento em que comecei a escrever a canção. É quase como voltar àquele lugar onde tudo começou. Aliás, estou agora sentado a falar contigo na mesma secretária onde componho as minhas canções, sozinho.
Quando as toco ao vivo, tento manter essa ligação. Claro que algumas coisas mudam, algumas partes ficam diferentes e, por vezes, tenho de encontrar soluções para momentos que no disco dependiam de vários músicos ou de determinados arranjos.
Mas gosto dessa liberdade. Às vezes, as versões ficam um bocadinho mais desarrumadas, talvez mais messy, mas também mais sinceras. Não há a mesma possibilidade de controlar todos os detalhes e acho que isso é muito interessante.
É uma experiência diferente, tanto para mim como para quem está a ouvir. E gosto de pensar que cada concerto acaba por ser uma interpretação ligeiramente diferente das canções.
Mente Cultural: Vai ser então um pouco diferente da última vez que estiveste em Portugal, que foi no festival NOS Alive, um evento enorme, cheio de pessoas, num ambiente em que as pessoas estão sempre de um lado para o outro. Agora vais estar a sós com o público. Já disseste que podemos esperar essa intimidade, mas o que podemos esperar mais?
Sondre Lerche: Sim, vai ser bastante diferente! (risos) Um festival como o NOS Alive tem uma energia muito própria. É fantástico tocar para tantas pessoas, mas é também um ambiente em que existem muitas coisas a acontecer em simultâneo e onde o público está a circular entre diferentes concertos.
Desta vez, vai ser uma experiência muito mais próxima. Estarei sozinho, com a guitarra, e isso permite criar uma ligação diferente com as pessoas que estão na sala.
Mas não vai ser apenas um concerto de apresentação de Acrobats. Claro que vou tocar várias canções do novo disco, porque é o trabalho que estou a apresentar e estou muito entusiasmado com ele, mas também quero percorrer a minha discografia.
Tenho canções de tantos álbuns diferentes e gosto muito da ideia de poder escolher músicas de diferentes momentos da minha carreira. Espero conseguir criar uma espécie de viagem por todo esse percurso.
E, naturalmente, haverá espaço para algumas canções mais antigas. Tenho muito carinho por Faces Down e por esse primeiro período da minha carreira. É interessante perceber como essas canções continuam a existir e como as pessoas continuam a relacionar-se com elas tantos anos depois.
Acho que estes concertos vão ser uma boa oportunidade para fazer algo um pouco diferente, partilhar histórias e criar uma experiência mais pessoal com o público português.




Mente Cultural: Mas ainda não preparaste uma setlist daquilo que vais tocar? Quando é que fazes essa escolha? Tem a ver com algum feeling que tenhas?
Sondre Lerche: Sim, gosto de manter as coisas bastante abertas. Não gosto de preparar um alinhamento demasiado rígido com muita antecedência, porque acho que uma parte interessante de tocar ao vivo é poder reagir ao momento e perceber aquilo que me apetece tocar.
Normalmente, gosto de chegar ao espaço do concerto antes de as portas abrirem, ter algum tempo para estar ali, fazer o soundcheck e perceber o ambiente. Muitas vezes, é nessa altura, no camarim ou durante o ensaio, que começo a pensar nas canções que quero incluir.
Também gosto de sentir o que as pessoas querem ouvir. Claro que não posso simplesmente perguntar a toda a gente que música quer ouvir e depois tocar três horas (risos), mas há sempre uma componente de intuição.
Há algumas canções que são quase inevitáveis. “Sleep On Needles”, por exemplo, é uma música que sei tocar de trás para a frente, por isso acaba por aparecer com bastante frequência. Existem outras que tenho tão presentes na memória que posso simplesmente começar a tocá-las sem grande preparação.
Mas também gosto de recuperar canções que talvez não toque há algum tempo. É uma das vantagens de estar sozinho em palco: posso mudar de direção, experimentar uma versão diferente ou até decidir, no momento, que quero tocar uma música que não estava inicialmente nos meus planos. Que músicas gostarias que eu tocasse?
Mente Cultural: Confesso que gosto muito dos teus dois primeiros álbuns, por isso, qualquer canção dessa fase já seria perfeita para mim.
Sondre Lerche: Que bom! É muito bom saber que há pessoas que têm uma ligação especial a esses discos. Tenho muito carinho por essas canções e é sempre interessante voltar a tocá-las, porque também já passaram tantos anos desde que as escrevi.
Estou mesmo muito entusiasmado por regressar a Portugal. Já passou bastante tempo desde a última vez e vai ser ótimo voltar, conhecer estes espaços e tocar para as pessoas daí. Estou realmente ansioso por estes concertos!
* Nota: a entrevista foi feita em inglês e no processo de transcrição e tradução há nuances que se afastam das respostas literais.