REPORTAGEM | FESTIVAL CUCA MONGA 2026: FAMÍLIA É ISTO.

O Festival Cuca Monga regressou aos jardins do Palácio Pimenta / Museu de Lisboa. Uma reportagem com Capitão Fausto, Sérgio Godinho, Manel Cruz e muito mais.

Reportagem: Francisco Pereira | Fotografias: Francisco Pereira e Pedro Pereira | Edição imagens: Joana Merlini

A Cuca Monga é uma associação cultural que já tem vários anos e que tem insistido em manter uma identidade muito própria. Dizem que se dedicam à promoção e criação da música, das artes e do espetáculo em Portugal e não só o fazem muito bem, sem cederem a algoritmos ou lógicas de mercado, como ainda por cima mantêm uma identidade coesa e coerente que faz deles uma família com verdadeiros valores de família a sério (ou seja, união, compaixão, tolerância, respeito, diversidade e multiculturalidade… não estou a falar daqueles “valores de família” que depois vai-se a ver e é tudo menos isso).

E nisto, têm andado a organizar um festival, anualmente, que decorre nos jardins do Palácio Pimenta, do Museu de Lisboa, em pleno Campo Grande, e foi precisamente o que voltou a acontecer este ano.

Primeiro Dia

Na sexta-feira 25 de setembro, o cartaz contava com um dos nomes maiores da associação, os Capitão Fausto, cabeças-de-cartaz do dia, e também Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo, Vaiapraia, Miguel Marôco, Leonor Arnaut, Rita Cortezão e Marquise.

Há que assumir que, chegámos apenas a tempo de ver Vaiapraia, perdendo Marquise e Rita Cortezão, os dois primeiros nomes a subir aos dois palcos do recinto. E por isso, chegámos para levar logo com duas bofetadas de energia visceral de puro punk-rock. Rodrigo Vaiapraia lidera este projeto que, para o Mente Cultural, lançou o melhor disco nacional do ano passado e parece-nos a nós que a grande maioria das pessoas não percebe efetivamente o que está ali. Vaiapraia personifica na plenitude aquilo que é o verdadeiro punk-rock, displicente, desgovernado mas sabendo para onde vai, raivoso mas afetivo, ausente de artefatos pipis, pujante e genial. Nasceram na década errada, no sítio errado, para sorte nossa.

A eles seguiu-se Leonor Arnaut, no palco do Bosque, um espaço pequeno para acolher uma artista que tem revelado muita curiosidade. Reservada e intimista, Arnaut surpreende pela forma como mistura diversas paisagens sonoras com uma sensibilidade que hipnotizou uma plateia inteira.

Terminado o momento onírico do palco do Bosque, regressámos ao palco da Relva para um dos momentos mais aguardados da noite, com o concerto dos Capitão Fausto. A banda estava literalmente em casa, pelo seu festival, pela sua editora, associação e bairro de Alvalade e assim o referiram e agradeceram com o sempre sincero “é bom estar em casa”. E para o público, incluindo pavões, que encheu o relvado principal, foi um momento de comunhão fraterna com uma banda que está a caminho de celebrar 20 anos de carreira. Algo que se nota em palco, com um à-vontade e um groove bem diferente e mais maduro do que nos tempos do seu primeiro Super Bock Super Rock, no Meco, em 2012. Passaram pelos temas mais recentes de Subida Infinita sem antes terminar com clássicos como “Teresa” ou “Santa Ana”.

A vida não acabava aqui pois ainda havia concertos de Miguel Marôco e mais tarde, de Sophia Chablau e Uma Enorme Perda de Tempo. Houve possibilidade de acompanhar o concerto do primeiro, infelizmente já não houve da última, mas podemos dizer que acabámos este primeiro dia em altas já que Miguel Marôco deu um autêntico espetáculo de som e flashadas luminosas. Sentado ao piano, Marôco colocou toda uma plateia a dançar, num contraste ambiental daquilo que foi, umas horas antes, o concerto introspetivo de Leonor Arnaut.

Segundo Dia

No sábado, o evento regressou para um novo fim-de-tarde/noite, perfeito, onde meteorologia, música e amor convergiram num só. Tínhamos pela frente um cartaz com Sérgio Godinho acompanhado da filha Leonor e a sua banda Zarco, Manel Cruz, Beatriz Pessoa, Rapaz Ego, IBSXJAUR, Bruno Berle e Manu Julian.

Às 18h15 em ponto começamos a ouvir as primeiras sonoridades de Beatriz Pessoa naquela que foi a melhor maneira para começar uma festa. Vestida de noiva para assinalar o seu 3º aniversário de casamento, Beatriz subiu ao palco acompanhada pela sua banda (Femme Falafel incluída, obviamente) e acompanhada pelo seu sorriso contagiante e amanteigado (como me disse o fotógrafo mais novo presente).

Ainda com muita gente a chegar com calma injustificada, Beatriz foi recebendo o público com os temas do seu álbum Muito Mais dos quais sobressaíram “Ai Quem Me Dera”, “A Pique, C’est Chique”, “Pó de Palco” e a viciante “9,99€” (que não passa a 10 nem chega a ser 9). Ainda contou com a ajuda de Miguel Marôco e do seu marido que subiu a palco para cantar “Muito Mais”, a faixa-título do disco.

Seguiu-se-lhe Manu Julian, cantora, compositora e artista visual brasileira que se apresentou ao público português, baixando um pouco a animação de Beatriz Pessoa mas que ganhou, com certeza, novos fãs com a sua versão moderna da MPB.

Voltámos ao palco principal porque era hora do enorme Manel Cruz, o músico que torna qualquer grande palco num local acolhedor e onde queremos estar. Foi um regresso aos concertos em que Manel passou pelos temas do seu álbum Vida Nova mas também dos tempos de Foge Foge Bandido. Brindou-nos com uma ótima noite e também com água porque, como disse (e com razão), “o importante não é brindar com álcool, é brindar com a alma”.

Antes de fecharmos (cedo) a noite com Sérgio Godinho (desculpem IBSXJAUR e Rapaz Ego), foi tempo de Bruno Berle atuar na intimidade do palco do Bosque, sozinho, com a guitarra ao colo e uma simpatia contagiante. Foi um concerto Sem Fronteiras e que celebrou o Reino dos Afetos, para jogarmos com os títulos dos seus álbuns. Tal como aconteceu com os seus compatriotas, Berle ajudou a fortalecer esta ponte transatlântica necessária e que foi aposta na edição deste ano.

O momento da noite, diriamos inclusive, do festival, estava marcado para o palco da Relva às 22h40. Sérgio Godinho protagonizou um concerto especial, a convite da banda Zarco, do qual faz parte a sua filha Leonor Godinho. Sérgio Godinho cantou um alinhamento escolhido pelo próprio grupo, combinando clássicos do seu repertório com temas menos habituais em palco.

O alinhamento percorreu canções emblemáticas como “A Noite Passada”, “Lisboa que Amanhece”, “Etelvina” e “O Elixir da Eterna Juventude”, além de resgates como “Le Soleil en Face” (1979) e “Caramba” (1981). A atuação ficou então marcada pela presença em palco de Leonor Godinho que também interpretou com o pai o tema “O Primeiro Gomo da Tangerina” (1993), composição inspirada na sua infância. O espetáculo encerrou com uma interpretação coletiva de “Liberdade”.

A apresentação serviu também de espaço para homenagear Jorge Palma, amigo de longa data de Sérgio Godinho. A citação a Palma ocorreu durante a execução de “A Noite Passada”, com a inclusão de um excerto de “A Gente Vai Continuar”, tema que voltou a soar no sistema de som no final do concerto, entoado em coro pelo público presente.

Foi assim a quarta edição do Festival Cuca Monga. Um festival diferente, que aposta na proximidade, na tranquilidade da música de artistas consagrados e de artistas emergentes.

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