Aos 60 anos, Michael Balzary, mundialmente conhecido como o imparável baixista dos Red Hot Chili Peppers, decidiu que era tempo de regressar às origens. Honora, o seu primeiro álbum solo editado em março de 2026 pela Nonesuch, é o resultado de uma promessa feita a si próprio: praticar trompete todos os dias durante uma digressão mundial de estádios para, finalmente, gravar o disco que o pequeno Flea, de oito anos, sempre desejou. O resultado é uma coleção madura e sofisticada que, longe de ser um projeto de vaidade, mergulha profundamente no jazz de Los Angeles, distanciando-se por completo da energia frenética que o tornou uma lenda do rock.
Honora (nomeado em memória de uma parente querida) revela um músico num estado de “flutuação” criativa. Flea não procura ser um virtuoso técnico nem fazer nenhum tipo de show-off. O que intende é expressar-se, movendo-se entre a harmonia convencional e a dissonância experimental. O álbum beneficia bastante da colaboração com figuras centrais da cena jazz contemporânea de L.A., como o guitarrista Jeff Parker (dos Tortoise) e a baixista Anna Butterss. Em temas como “Morning Cry”, o grupo evoca o espírito de Thelonious Monk e Ornette Coleman, permitindo que o trompete de Flea explore as margens das composições com uma honestidade comovente.
Embora o disco brilhe intensamente na sua primeira metade com originais como “Frailed” (uma peça hipnótica de dez minutos com um solo de flauta de Warren Ellis), a segunda parte foca-se em reinterpretações audazes. A versão de “Maggot Brain”, dos Funkadelic, substitui a lendária guitarra de Eddie Hazel por arranjos de sopros e vibrafone, e captura uma nobreza trágica que remete para as bandas sonoras de Terence Blanchard.
Não podemos também esquecer, e isto não é nenhuma nota de rodapé, que o álbum conta ainda com participações de peso: Thom Yorke empresta a sua voz a “Traffic Lights”, um tema de “avant-rock-jazz” que reflete sobre o estado político atual, enquanto Nick Cave oferece uma interpretação sentida do clássico “Wichita Lineman”.
Apesar de algumas passagens mais seguras, como a cover de Frank Ocean, o sentimento geral é de que Flea conseguiu algo raro: reinventar-se sem perder a sua identidade. Honora prova que o músico que outrora tocava trompete em palco com os Nirvana em 1993, de forma hesitante, é agora um líder de banda confiante e generoso. Como o próprio exclama a meio do disco, “isto não é lamechas, isto é real”. Este é um registo de um artista que, após décadas a dominar os grandes palcos, encontrou a liberdade necessária para não se preocupar em encaixar em lado nenhum.











