O projeto Fontes Sonoras regressa à Aldeia das Fontes para a terceira e última residência artística de 2026. Depois de Gil Delindro, em fevereiro, e Matilde Meireles, na primavera, o ciclo encerra com a artista e compositora britânica Kathy Hinde, cuja prática cruza som, escultura, imagem e tecnologia, partindo frequentemente da observação de fenómenos naturais e sistemas ecológicos.
Durante uma semana, Kathy Hinde irá trabalhar em estreita relação com o rio Lis, elemento central da paisagem da Aldeia das Fontes, para desenvolver uma nova versão site-specific de Water Balance, escultura sonora cinética criada originalmente em 2019 e agora repensada a partir das condições particulares do rio e da paisagem envolvente.
Inspirada no shishi-odoshi, dispositivo tradicional japonês em que a água enche progressivamente um recipiente basculante até provocar o seu movimento, a obra transforma o fluxo da água num mecanismo de composição. Uma série de recipientes enche-se lentamente até atingir um ponto de desequilíbrio, inclinando-se então para libertar a água e fazer ressoar diferentes objetos. Cada recipiente volta depois à posição inicial e o processo recomeça.
No rio Lis, será assim a própria água a determinar o ritmo da obra. Os diferentes tempos de enchimento e esvaziamento dos recipientes dão origem a uma composição sonora continuamente variável, construída por ciclos que se cruzam, se afastam e voltam a coincidir. Em vez de obedecer a uma temporalidade previamente definida, a instalação deixa-se conduzir pelas condições do lugar: pelo caudal, pela velocidade da água e pelas pequenas oscilações que atravessam o rio.
A obra propõe, deste modo, uma forma de escutar o comportamento da água. Ao tornar audíveis as variações do seu fluxo, chama também a atenção para um sistema natural em permanente transformação e para as alterações dos níveis da água ao longo do ano. O rio deixa de funcionar apenas como contexto ou paisagem da obra para se tornar simultaneamente matéria, energia e agente da composição.
Esta relação entre processos naturais e sistemas construídos atravessa grande parte da prática de Kathy Hinde. A artista desenvolve instalações e performances em que mecanismos, objetos, som, luz e imagem interagem com fenómenos encontrados na natureza, procurando criar situações em que processos humanos e não-humanos possam atuar conjuntamente. A água ocupa um lugar particularmente importante no seu percurso, surgindo em vários trabalhos como matéria física, sistema dinâmico e forma de pensar as relações ecológicas e os estados de equilíbrio e transformação.
A residência culminará, no dia 1 de novembro, com uma apresentação pública na Aldeia das Fontes, convidando o público a acompanhar o resultado deste processo de investigação e criação e a experienciar uma obra cujo comportamento depende diretamente do rio e das condições encontradas durante a residência.
Com esta terceira residência termina o ciclo de 2026 do Fontes Sonoras, que ao longo do ano convidou três artistas a aproximarem-se da paisagem da Aldeia das Fontes através de diferentes modos de investigação sonora. Mantendo uma relação próxima com a comunidade local, o projeto propõe a arte sonora como ferramenta de escuta ativa e leitura sensível do território, criando espaço para experiências artísticas que emergem das características ambientais, materiais e sociais do lugar.
Fontes Sonoras é uma iniciativa da Omnichord, com curadoria de Raquel Castro e direção artística de Gui Garrido, dedicada à criação artística em diálogo com o território e a comunidade da Aldeia das Fontes, promovendo novas formas de escuta e relação com o ambiente.
* fotografia de James Cook