Hamnet: de obra infilmável a fenómeno emocional

Eduardo Marino

Sai-se da sala devagar, como quem acabou de assistir a um velório coletivo. Há gente de olhos vermelhos, gente em silêncio absoluto e que não consegue comentar o que acabou de ver. Hamnet provoca esse efeito raro, e é um dos filmes mais nomeados do ano.

Desde a sua estreia, Hamnet tem vindo a somar nomeações importantes e a ganhar estatuto de favorito em várias frentes da temporada de prémios. Muito desse percurso ficou praticamente selado com a vitória do Prémio do Público no Festival de Toronto — um sinal quase infalível de que o filme não se limita a agradar à crítica, mas encontra ressonância emocional junto de audiências mais vastas. Toronto tem esse histórico: quando o público responde assim, o filme costuma ir longe.

Entretanto, o filme arrecadou 8 nomeações aos Óscares de 2026, incluindo Melhor Filme, Melhor Realização e Melhor Atriz para Jessie Buckley, além de outras categorias principais — um total que o coloca num lugar de destaque na corrida aos prémios. Nos Golden Globe Awards, o filme já tinha vencido em categorias importantes, como Melhor Filme de Drama e Melhor Atriz.

A realização de Chloé Zhao revela-se decisiva para transformar aquilo que muitos consideravam um livro impossível de adaptar. O romance de Maggie O’Farrell foi durante anos descrito como “infilmável” porque vive quase exclusivamente do que não se vê: o luto íntimo, o trauma silencioso, a erosão lenta provocada pela perda de um filho. Não há enredo tradicional, nem grandes viragens dramáticas — há estados emocionais, memórias soltas, fragmentos de dor. Zhao percebe isso e nunca tenta forçar uma estrutura clássica.

O seu estilo, já reconhecível, encaixa aqui com precisão cirúrgica. Nada é sublinhado, nada é explicado em excesso. É um cinema de contenção, onde cada escolha formal serve para amplificar o que não é dito.

No centro emocional do filme está Jessie Buckley, numa interpretação inevitavelmente destinada a prémios. A sua Agnes é o coração pulsante de Hamnet: intuitiva, selvagem, profundamente marcada pela ligação aos filhos e pelo choque irreversível da perda. Buckley constrói a personagem com uma intensidade quase física, transformando o luto num estado permanente do corpo.

A história imagina a vida íntima de Shakespeare a partir da morte do filho Hamnet, recusando qualquer abordagem reverencial ao mito literário. Aqui, Shakespeare é secundário; o foco está na família, na fratura emocional que antecede a obra, na ideia de que a criação artística nasce muitas vezes de uma tentativa desesperada de dar forma à dor. Hamlet surge como sombra futura, não como objetivo narrativo.

Convém avisar: tragam lenços. No final, a emoção é transversal à sala inteira. Há choro, há silêncio, há pessoas que saem sem trocar uma palavra. Hamnet não oferece catarse fácil nem consolo rápido. Oferece, isso sim, uma experiência emocional profundamente humana, que se entranha e fica. E fica mesmo.

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