Criada e protagonizada por Rachel Sennott, I Love LA, já inteiramente disponível na HBO Max, marca um passo lógico na trajectória de uma actriz que nunca pareceu interessada em encaixar numa persona simpática ou facilmente digerível. Depois de Shiva Baby e Bottoms, Sennott traz para a televisão uma comédia que troca a ansiedade familiar pelo desconforto profissional e social de uma geração inteira. Aqui, ela não está apenas em frente à câmara: controla o tom, o ritmo e o olhar. Nota-se.
A série acompanha Maia, funcionária de uma agência de talentos que vive no cruzamento entre creators, influencers, marcas e egos frágeis. O seu dia-a-dia passa por gerir carreiras alheias enquanto a própria vida pessoal fica em suspenso. À sua volta orbitam figuras que parecem saídas directamente do feed: amigas influencers, stylists, agentes e parceiros que tanto podem ser apoio como obstáculo. Não há vilões clássicos — há pessoas a tentar sobreviver num sistema que exige exposição constante.
O que I Love LA faz melhor não é explicar o mundo dos influencers, mas assumir que ele já é o mundo. As conversas sobre números, relevância, colaborações e “timing” são linguagem corrente. A série entende que, em LA, a linha entre amizade e networking é ténue, e que muitas relações começam com entusiasmo genuíno e acabam a ser corroídas pela comparação permanente.
Sennott escreve Maia como alguém que observa tudo com ironia, mas nem sempre consegue sair do jogo. Há aqui uma inteligência particular: I Love LA não goza com os influencers a partir de fora, goza a partir de dentro, com consciência de classe criativa. As piadas nascem do embaraço, da insegurança e da forma como toda a gente finge estar bem enquanto actualiza o perfil.
O elenco secundário ajuda a dar corpo a este retrato: Odessa A’zion (que vamos poder ver em Marty Supreme) traz energia imprevisível ao papel da influencer magnética que vive entre o caos e a performance; Jordan Firstman injecta humor ácido e autoconsciente; Josh Hutcherson funciona como o elemento deslocado — alguém demasiado “normal” para aquele ecossistema, o que por si só já é estranho.
Visualmente, I Love LA evita o postal turístico. A cidade surge fragmentada: escritórios, festas, casas alugadas, restaurantes onde ninguém parece totalmente presente. LA não é tanto um cenário como um estado mental — competitivo, ansioso, cheio de promessas vagas. Viver ali, sugere a série, é estar sempre a meio de alguma coisa que pode ou não acontecer.
Nem tudo funciona sempre. Há episódios que ficam mais dispersos, personagens que podiam ser mais aprofundadas, e momentos em que a sátira parece contentar-se com o reconhecimento em vez de avançar. Ainda assim, I Love LA ganha por persistência: sabe exactamente o que quer observar e recusa dar lições morais fáceis.
No fim, a série vale menos como grande declaração sobre a cultura digital e mais como retrato honesto de um presente confuso, onde trabalho, identidade e visibilidade estão permanentemente misturados. Rachel Sennott afirma-se aqui não só como uma das vozes mais relevantes da sua geração enquanto actriz, mas como alguém capaz de transformar o desconforto contemporâneo em material narrativo com humor, lucidez e alguma crueldade bem medida.











