Realizado por Mary Bronstein, este é um filme construído a partir da tensão. Não há grandes acontecimentos externos; o que vemos é o desgaste progressivo de uma mulher que perde a margem interna necessária para continuar a funcionar. A presença de Josh Safdie como produtor executivo é visível na forma como o filme recusa conforto. A câmara permanece próxima, insistente, criando uma sensação contínua de pressão. Não há distanciamento seguro. Tudo acontece demasiado perto.
Rose Byrne interpreta Linda – uma psicóloga que tem de sair de casa temporariamente, sem a presença do marido -, que vive num estado permanente de sobrecarga. Byrne evita qualquer dramatização excessiva. O que constrói é mais preciso: uma mulher funcional por fora (até não aguentar mais) mas progressivamente fragmentada por dentro. O controlo é o seu principal mecanismo de sobrevivência, e é também aquilo que começa a falhar.
Esta interpretação valeu-lhe uma nomeação nos Óscares deste ano e vários prémios da crítica desde a estreia do filme em festivais internacionais. O reconhecimento não surge por momentos de explosão emocional, mas pelo rigor com que sustenta o desgaste ao longo de todo o filme. Byrne tenta manter a personagem num estado de contenção constante.
A relação com a filha é o eixo central. Durante quase todo o filme, a criança existe apenas como voz. Nunca é mostrada. Esta escolha retira qualquer possibilidade de resolução fácil. A filha é uma presença permanente, mas também uma ausência física, reforçando a sensação de distância emocional e de falha na ligação.
Nos papéis secundários, há duas presenças inesperadas. Conan O’Brien surge num registo contido, distante da persona pública que o define. A sua presença acrescenta estranheza e desconforto, precisamente por contrariar expetativas. Já A$AP Rocky, que tem vindo a consolidar uma carreira consistente no cinema, confirma aqui a sua capacidade de existir em cena sem esforço aparente. O parceiro de Rihanna tem escolhido projetos que exploram vulnerabilidade e ambiguidade, afastando-se de uma presença meramente simbólica.
If I Had Legs I’d Kick You é um filme sobre o colapso do papel — profissional, parental, identitário. Não oferece explicações claras nem resolve o desconforto que cria. Observa, com precisão, o momento em que alguém deixa de conseguir sustentar a versão de si próprio que construiu.











