“Is This Thing On?”: Entre o divórcio e o stand-up

Eduardo Marino

No seu terceiro filme como realizador, Bradley Cooper afasta-se do protagonismo e entrega a história a Will Arnett e Laura Dern. O resultado é um retrato de divórcio, reinvenção e da tentativa de encontrar uma nova voz quando a vida muda de direção.

Is This Thing On? é o terceiro filme realizado por Bradley Cooper, depois de A Star is Born e Maestro. Mas, ao contrário desses dois projetos, desta vez Cooper afasta-se do centro e assume apenas um papel secundário, deixando o protagonismo para Will Arnett e Laura Dern.

A história segue Alex e Tess, um casal que decide separar-se de forma aparentemente civilizada depois de anos juntos. Enquanto tentam reorganizar a vida e manter a co-parentalidade dos dois filhos, Alex entra numa crise de meia-idade e começa, quase por acaso, a fazer stand-up comedy em Nova Iorque, usando o divórcio como matéria-prima. Tess, por sua vez, confronta os sacrifícios que fez ao longo da relação e tenta perceber quem é fora dela.

O argumento foi coescrito por Cooper, Arnett e Mark Chappell, e inspira-se livremente na história do comediante britânico John Bishop, que encontrou no stand-up uma forma de reconstrução pessoal depois de uma crise conjugal.

O filme estreou no Festival de Cinema de Nova Iorque e marcou a primeira colaboração profissional entre Cooper e Arnett, amigos há décadas.

Mas é claramente o filme de Will Arnett. Conhecido sobretudo por papéis cómicos, ele assume aqui um registo mais contido, interpretando um homem deslocado, sem direção clara. Há momentos em que essa fragilidade funciona, sobretudo nas primeiras atuações de stand-up, onde o desconforto é mais convincente do que as próprias piadas.

Laura Dern, como Tess, tem menos tempo de ecrã, mas oferece o contraponto mais sólido. A sua personagem não está em crise visível, mas num processo silencioso de reorganização. Bradley Cooper, no papel do amigo de Alex, surge de forma intermitente, quase como um elemento de ligação. Depois de dois filmes onde controlava completamente a narrativa a partir de dentro, aqui parece deliberadamente recuado. A realização é competente, mas sem o mesmo grau de envolvimento emocional que marcava os seus trabalhos anteriores.

Talvez o maior problema de Is This Thing On? seja a expectativa criada pela trajetória de Cooper. Depois de um primeiro filme sobre ascensão e queda e de um segundo sobre obsessão artística, este surge como um estudo mais pequeno sobre reinvenção pessoal. Só que nunca atinge a mesma intensidade.

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