LEFFEST 2026: O cinema feminino como espaço de liberdade e descoberta.

Descubra a programação da 20ª edição do LEFFEST 2026 em Lisboa, com foco nas vozes e visões femininas no Cinema São Jorge, Cinema Medeia Nimas e Culturgest.

Entre os dias 6 e 15 de Novembro de 2026,  Lisboa volta a transformar-se na capital incontornável do cinema de autor com a chegada da 20ª edição do LEFFEST (Lisboa Film Festival). Com dezenas de obras espalhadas pelos ecrãs do Cinema São Jorge, Cinema Medeia Nimas, Culturgest, Teatro do Bairro e Cinema NOS Vasco da Gama, o festival apresenta uma programação vasta e arrojada. No entanto, no Mente Cultural, decidimos focar a nossa atenção nas vozes e visões femininas que marcam decisivamente esta edição.

Há uma urgência particular na forma como o cinema contemporâneo e o grande património da sétima arte se deixam atravessar pelo olhar, pela sensibilidade e pela coragem criativa das mulheres. No LEFFEST, esse território afirma-se como um manifesto vivo: a câmara deixa de ser um mero instrumento de registo passivo para se assumir como extensão de um pensamento político, íntimo e profundamente poético. Através de realizadoras que desafiam o estatuto político e social da imagem, estas autoras usam o cinema como ferramenta para desmontar as estruturas de opressão, questionar a violência e expor as fissuras da memória, do luto, do corpo e da identidade, e agora mais do que nunca é iminente.

Reunindo as visões de Kelly Reichardt, Lee Chang-dong, Sophie Letourneur, Fanny Ardant, Sandra Wollner, Valeska Grisebach, Lila Pinell, Valentina Maurel, Jelena Maksimovic, Marie Vermillard, Marie Kreutzer, Barbara Sukowa, Vera Chytilová, Catherine Breillat, Eva Ionesco, Gilles Pontecorvo, Luis Buñuel, Barbet Schroeder e das vozes do coletivo Fumaça, o festival abre portas a uma polifonia essencial de cinema, debates e leituras radicais.

É uma das mais apreciadas realizadoras americanas, mas nem sempre os seus filmes chegam com a cadência justa. Eis então a oportunidade para colmatar falhas e redescobrir uma obra que brilha no vasto capítulo do cinema independente made in USA. Reichardt extrai da beleza marginal as histórias de um país mais melancólico do que a espectacularidade de Hollywood deixa adivinhar.

Sessões da retrospectiva passa por marcos como:
Old Joy (07 NOV: 18H30 / Cinema Medeia Nimas),
Wendy & Lucy (08 NOV: 21H30 / Cinema Medeia Nimas), 
O Atalho (Meek’s Cutoff, 09 NOV: 15H30 / Cinema Medeia Nimas), 
First Cow (09 NOV: 17H00 / Cinema São Jorge), 
The Mastermind (10 NOV: 18H00 / Culturgest), 
River of Grass (11 NOV: 16H30 / Culturgest), 
Showing Up (12 NOV: 16H00 / Cinema Medeia Nimas), 
Night Moves (12 NOV: 17H00 / Cinema São Jorge)
Certain Women (13 NOV: 18H00 / Cinema Medeia Nimas). 

Nas vastas planícies do Montana, Kelly Reichardt constrói uma obra sutil e contemplativa sobre três mulheres a navegar os pequenos nãos da vida quotidiana, entre o sexismo no trabalho e as frustrações familiares. Para dar vida a estas histórias de resiliência, a realizadora junta um elenco de atrizes extraordinário: Laura Dern, Michelle Williams (colaboradora habitual do cinema de Reichardt) e Lily Gladstone contracenam com Kristen Stewart  que, hoje afirmada como uma das vozes mais ativas e influentes do panorama internacional na defesa dos direitos das mulheres e da comunidade LGBTQ+, entrega aqui uma interpretação delicada e magnética numa ambígua relação com uma trabalhadora rural.

(Quase todas as sessões contam com a presença da realizadora).

Um dos nomes maiores do novo cinema coreano, Lee Chang-dong (n. 1954) é um realizador e romancista na fronteira entre a narrativa íntima e a vertigem histórica. A abrir a sua retrospectiva, em antestreia no LEFFEST e na sua única exibição em salas de cinema em Portugal, apresenta o seu mais recente trabalho, Possible Love (Grande Prémio do Júri no Festival de Veneza). A sua obra observa com delicadeza e dor de personagens isoladas que lidam com o desejo, o luto e a desigualdade social.

Sessões da Retrospectiva:
Possible Love
(06 NOV: 20H30 / Cinema Medeia Nimas), 
Green Fish (07 NOV: 13H00 / Cinema São Jorge, Sala 3), 
Em Chamas / Burning (09 NOV: 15H00 / Culturgest, Grande Auditório), 
Poesia / Poetry (10 NOV: 21H45 / Culturgest, Pequeno Auditório), 
Oasis (14 NOV: 18H00 / Cinema São Jorge, Sala 3), 
Secret Sunshine : (14 NOV: 21H45 / Culturgest, Pequeno Auditório)
Peppermint Candy:  (15 NOV: 14H00 / Culturgest, Pequeno Auditório)

Kelly Reichardt e Lee Chang-dong

Actriz e cineasta, Sophie Letourneur é senhora de um cinema irreverente, livre e despenteado, marcado pela comédia íntima e por uma fusão orgânica entre ficção e tom documental. Operando numa fronteira fluida onde o prosaico e o imperfeito ganham vida, Letourneur assume frequentemente o papel principal em versões ficcionais de si mesma, transitando com mestria entre o slapstick, a sitcom e a melancolia. A sua obra acompanha o próprio amadurecimento, transformando o quotidiano, a exaustão da maternidade, as férias em família e as crises conjugais em crónicas de uma naturalidade desconcertante.

A cineasta marca presença no LEFFEST para acompanhar de perto a sua retrospectiva, em sessões que contam com a sua presença para conversar com o público.

Sessões:
La Vie au ranch (07 NOV: 21H30 / Cinema São Jorge, Sala 3),
Le Marin masqué / Les Coquillettes (08 NOV: 18H30 / Cinema São Jorge, Sala 3),
Gaby Baby Doll (09 NOV: 19H30 / Cinema São Jorge, Sala 3), 
Énorme (10 NOV: 13H00 / Cinema São Jorge, Sala 3), 
Voyages en Italie (11 NOV: 16H30 / Cinema São Jorge, Sala 3) 
L’Aventura (11 NOV: 21H00 / Cinema São Jorge, Sala 3). Todas com a presença da realizadora.

Uma das grandes musas e figuras tutelares do cinema francês e europeu, a carreira de Fanny Ardant é atravessada por uma versatilidade impressionante e magnética nos dias de hoje, focada na condição feminina, na liberdade individual e na memória histórica. O seu percurso transita com uma elegância natural entre a intensidade dos dramas românticos e passionais de François Truffaut, a ironia refinada de comédias satíricas como 8 Mulheres, a densidade poética de colaborações com mestres como Michelangelo Antonioni e Ettore Scola, até à sua própria afirmação atrás das câmaras como realizadora atenta às fissuras da memória, da condição feminina e da liberdade individual.

Nesta edição do LEFFEST, a cineasta e atriz francesa marca presença em Portugal para apresentar a sua mais recente obra enquanto realizadora, Ela Olhava sem Nada Ver. Rodado nas paisagens brumosas e enigmáticas dos Açores, o filme — que reúne um elenco de luxo encabeçado por Carolina Amaral, Ana Padrão, Paulo Pires, Miguel Borges e Gérard Depardieu, constrói um intenso quebra-cabeças poético em torno do luto, do contrabando e da reconstrução da identidade numa ilha remota.

Sessões:
Ela Olhava sem Nada Ver.  (07 NOV (Sábado): 21H30 I Cinema Medeia Nimas (Sessão especial com presença e conversa com a realizadora Fanny Ardant))
Ela Olhava sem Nada Ver.  (13 NOV (Sexta-feira) — 17H00 | Cinema NOS Vasco da Gama (Sala 4))

Sophie Letourneur e Fanny Ardant

Após a trágica morte da filha mais velha na véspera de uma viagem familiar, Ella e a sua filha caçula, Melli, tentam reconstruir uma rotina frágil. Um ano mais tarde, Lux o namorado adolescente que estava presente na noite do terrível acidente, reaparece inesperadamente na vida de ambas. Dividido entre o peso sufocante da culpa e a profunda necessidade de perdão, este improvável trio decide partir rumo a Tenerife para viver as férias que o destino outrora interrompeu. Sob o sol radiante e implacável das Canárias, o passado e o presente começam a sobrepor-se de forma silenciosa, transformando a viagem numa tentativa dolorosa e metafísica de superar o luto. Sandra Wollner consolidou-se no cenário internacional através de uma assinatura artística ousada, onde utiliza narrativas fragmentadas e atmosferas sensoriais para dissecar os traumas mais profundos da vivência humana. Esta obra-prima valeu-lhe o prestigiante prémio principal da mostra Un Certain Regard no Festival de Cannes.

Elenco: Birgit Minichmayr, Lotte Shirin Keiling, Tristán López, Carla Hüttermann

Everytime (08 NOV: 21H30 / Cinema NOS Vasco da Gama (Sala 4))
Everytime (11 NOV: 15H30 / Cinema Medeia Nimas)

Premiada com o Prémio do Júri no Festival de Cannes e escolhida como a representação oficial da Bulgária aos Óscares de 2027, a aclamada realizadora alemã Valeska Grisebach regressa com The Dreamed Adventure (Das geträumte Abenteuer), uma experiência cinematográfica profunda, sensorial e de grande precisão formal.

Na pacata cidade fronteiriça de Svilengrad, na Bulgária, onde o país se cruza com a Grécia e a Turquia, Veska, uma arqueóloga de meia-idade dedicada às suas escavações, reencontra Saïd, uma antiga paixão cujo carro foi subitamente roubado. Decidida a ajudá-lo a recuperar o veículo, acaba por ser arrastada para o submundo de negócios perigosos e para uma violenta disputa de território entre contrabandistas locais. Quando Saïd desaparece sem deixar rasto, a narrativa foca-se inteiramente na determinação de Veska. Ao navegar por um ambiente hostil de redes patriarcais e corrupção rural, a arqueóloga assume a figura central de um verdadeiro western moderno e crepuscular, forçada a desenterrar não só as redes ocultas da região, mas também os fantasmas e desejos mais profundos do seu próprio passado.

Com quase três horas de duração, Grisebach consolida a sua assinatura visual realista e contemplativa, recorrendo a um apurado estilo antropológico (cinéma vérité) e a um elenco de atores não profissionais de exceção, liderado por Yana Radeva, Syuleyman Alilov Letifov, Stoicho Kostadinov e Denislava Yordanova — para construir uma atmosfera magnética de tensão silenciosa nas margens da Europa.

A realizadora estará presente no LEFFEST para acompanhar as exibições da sua obra e conversar com o público.

The Dreamed Adventure (11 NOV: 16H30 / Cinema NOS Vasco da Gama (Sala 4) (Com a presença da realizadora))
The Dreamed Adventure (13 NOV: 21H00 / Cinema Medeia Nimas (Com a presença da realizadora))

Sandra Wollner e Valeska Grisebach

Formada em Filosofia e com mestrado em Realização Documental em Lussas, a cineasta e argumentista francesa Lila Pinell, reconhecida pela fusão entre o registo documental e a ficção e detentora do prestigiado Prémio Jean-Vigo por Le Roi David (2021) Shana é uma vibrante crónico-fábula urbana que foi apresentada na Quinzaine des Cinéastes do Festival de Cannes.

O filme acompanha a rotina frenética de Shana, uma jovem da periferia parisiense que enfrenta a precariedade do quotidiano com uma energia inabalável mostra-nos a cumplicidade do seu grupo de amigas. Quando a sua avó morre e lhe deixa um anel herdado para a proteger do mau-olhado, a jovem agarra-se a esse gesto de fé supersticiosa para navegar a sucessão de infortúnios e a co dependência afetiva do seu parceiro tóxico, recém-saído da prisão. 

Protagonizado pela magnética Eva Huault, atriz com quem Pinell colabora desde  sempre, Shana afirma-se como um retrato fresco, caótico e profundamente feminista sobre a sororidade nas ruas e a emancipação jovem.

Elenco: Eva Huault, Noémie Lvovsky, Inès Gherib, Anaïs Monah

Sessões:
Shana (11 NOV: 21H45 / Culturgest (Pequeno Auditório))
Shana (13 NOV: 14H00 / Cinema São Jorge (Sala 3))

Formada em realização no INSAS em Bruxelas, a cineasta costa-riquenha Valentina Maurel afirmou-se como uma das vozes mais estimulantes do cinema latino-americano contemporâneo após o enorme sucesso da sua estreia, Tengo sueños eléctricos (2022), premiado no Festival de Locarno.

Na sua nova longa-metragem, Siempre soy tu animal materno, apresentada nos festivais de Cannes (onde o trio de atrizes arrecadou o prémio de interpretação na secção Un Certain Regard) e San Sebastián, Maurel traz ao LEFFEST uma exploração intensa e agridoce sobre a pertença e os laços de sangue.

O filme segue Elsa, que, após anos de estudo na Europa, regressa à Costa Rica para reencontrar a sua família. À chegada, depara-se com uma geografia doméstica em turbulência,a irmã mais nova vive isolada e reclusa, o pai mantém-se ocupado com perseguições românticas e a mãe dedica-se com grande fervor a republicar os poemas eróticos que escreveu durante os tempos áureos da sua juventude. Confrontadas com este reencontro, as três mulheres vêem-se forçadas a encarar as feridas abertas, a sexualidade e os laços indissolúveis que as unem.

Elenco: Daniela Marín Navarro, Marina de Tavira, Reinaldo Amien, Mariangel Villegas

A realizadora estará presente no LEFFEST em ambas as sessões para acompanhar a exibição da obra e conversar com o público.

Sessões:
Siempre soy tu animal materno (08 NOV: 21H30 / Cinema São Jorge (Sala 3) (Com a presença da realizadora))
Siempre soy tu animal materno (09 NOV: 21H00 / Culturgest (Pequeno Auditório) (Com a presença da realizadora))

Nascida em Belgrado, Jelena Maksimović construiu um percurso de enorme relevância no cinema europeu contemporâneo, afirmando-se inicialmente como uma das mais prestigiadas montadoras da região balcânica, com trabalhos apresentados em festivais como Cannes, Veneza e Berlim, antes de se estrear na realização com obras aclamadas como Taurunum Boy (2018) e Homelands (Domovine, 2020). A sua escrita cinematográfica cruza com mestria o rigor político, a observação documental da paisagem e uma sensibilidade apurada para captar a vulnerabilidade da juventude.

Apresentado em estreia mundial na secção Orizzonti do Festival de Veneza 2026, a sua mais recente obra, Until the Day Ends (Do kraja dana), traz ao LEFFEST um retrato urbano elétrico e visceral. Num Belgrado profundamente dividida por protestos de anticorrupção e tensões sociais nas ruas, a narrativa acompanha Lena, uma ativista de 20 anos que procura escapar a um ambiente familiar sufocante, e Stefan, um jovem de um lado oposto das manifestações. Ao cruzarem-se num turbilhão de agitação e incerteza, ambos reconhecem uma inquietação comum e o desejo partilhado de liberdade, mergulham numa ligação íntima e ambígua enquanto tentam navegar pelo caos da cidade.

Elenco: Lena Trifunović, Andrija Krivokapić, Irina Hotomski, Stefan Tarabić, Miodrag Dragičević

Sessões
Until the Day Ends (Do kraja dana) (08 NOV: 15H30 / Culturgest (Pequeno Auditório))
Until the Day Ends (Do kraja dana) (11 NOV: 19H00 / Cinema São Jorge (Sala 3))

O trailer oficial de Until the Day Ends mostra como Jelena Maksimović capta os protestos em Belgrado e a relação entre os protagonistas.

Com uma obra marcada pela sensibilidade poética e pela exploração da condição humana evidente em trabalhos aclamados como Eau douce, Lila Lili (apresentado no Festival de Berlim) e Imago (Locarno) , a cineasta e artista visual francesa Marie Vermillard, presente na prestigiada La Fémis, traz ao LEFFEST a sua mais recente obra, Par 4 chemins.

Coescrito com Joël Brisse, o filme transporta-nos até ao século XII para acompanhar o irmão Antoine e o irmão Vincent. Ao decidirem abandonar a clausura do mosteiro, os dois frades regressam ao mundo terreno com a missão pura de ajudar as pessoas a reencontrarem a alegria. Cheios de entusiasmo lá vão eles, a  caminhada transforma-se numa fábula luminosa e numa aventura iniciática repleta de encontros improváveis, revelações espirituais e uma sincera celebração dos laços humanos.

A realizadora estará presente no LEFFEST em ambas as exibições para conversar com o público sobre a sua visão e o processo criativo da obra.

Elenco: Antoine Benjamin, Vincent Quentin, Benoit Florian, Louis Tom, Marie Asja

Sessões:
Par 4 Chemins (11 NOV: 14H00 / Culturgest (Pequeno Auditório) (Com conversa com a realizadora Marie Vermillard))
Par 4 Chemins (12 NOV: 21H00 / Cinema São Jorge (Sala 3) (Com conversa com a realizadora Marie Vermillard))

A cineasta e argumentista austríaca Marie Kreutzer afirmou-se como um dos nomes mais acutilantes do cinema europeu contemporâneo, dominando como poucas a tensão psicológica e a desconstrução das expectativas sociais impostas às mulheres, uma assinatura que lhe valeu aclamação internacional com obras como Corsage (2022).

Em Gentle Monster, o seu mais recente projeto, Kreutzer traz ao LEFFEST um denso thriller psicológico sobre as aparências da vida familiar. A narrativa acompanha uma pianista que, na tentativa de aliviar o estado de burnout do marido, decide mudar-se com a família para uma casa no campo. Contudo, a expectativa de um refúgio bucólico e regenerador, desmorona-se rapidamente à medida que segredos e verdades perturbadoras sobre o seu companheiro começam a vir à superfície.

A sessão contará com a presença da realizadora para uma conversa com o público.

Elenco: Léa Seydoux, Catherine Deneuve, Sylvester Groth, Jella Haase

Sessão no LEFFEST:

Gentle Monster (07 NOV: 18H00 / Cinema NOS Vasco da Gama (Sala 4) (Com conversa com a realizadora Marie Kreutzer))

Considerada uma das atrizes mais marcantes e versáteis do cinema europeu, Barbara Sukowa é consagrada nesta edição do LEFFEST com uma Homenagem de Interpretação. Um dos rostos fundamentais do Novo Cinema Alemão, a sua trajetória imortalizou-se através das lendárias colaborações com Rainer Werner Fassbinder (como a inesquecível protagonista de Lola e no épico Berlin Alexanderplatz) e com a realizadora Margarethe von Trotta, dando vida a figuras históricas complexas e desafiadoras.

Na sessão de homenagem no LEFFEST, é apresentado um dos seus papéis mais aclamados de sempre: Hannah Arendt (2012), dirigido por Margarethe von Trotta. O filme foca-se no período em que a filósofa e teórica política judaico-alemã cobre para a revista The New Yorker o julgamento do criminoso nazi Adolf Eichmann em Jerusalém. Através de uma interpretação magnética e rigorosa de Sukowa, a narrativa retrata a criação do célebre e polémico conceito da “banalidade do mal”, espelhando a coragem intelectual de Arendt perante a vaga de incompreensão, isolamento e críticas que se seguiu à publicação dos seus artigos.

Além das suas colaborações com mestres como Lars von Trier e David Cronenberg (M. Butterfly), Sukowa é também reconhecida pelo seu trabalho na música contemporânea, mantendo-se como uma força performativa incandescente e insubmissa.

A prestigiada atriz estará presente em Lisboa para apresentar a sessão especial e conversar com o público.

Elenco de Hannah Arendt: Barbara Sukowa, Axel Milberg, Janet McTeer, Julia Jentsch, Klaus Pohl

Sessão em Destaque no LEFFEST:
Hannah Arendt (10 NOV: 15H00 / Cinema São Jorge (Sala Manoel de Oliveira) (Sessão especial com a presença e conversa com Barbara Sukowa))

Figura maior e pioneira da Nova Vaga Checoslovaca, a realizadora Vera Chytilová (1929–2014) deixou uma marca indelével na história do cinema mundial através da sua audácia formal, espírito de vanguarda e crítica mordaz ao patriarcado e ao autoritarismo.

No LEFFEST, o público terá a oportunidade de rever no grande ecrã o seu incontornável clássico de 1966, Jovens e Atrevidas (Daisies / Sedmikrásky). Com uma linguagem visual caleidoscópica, colagens concetuais e uma energia feminista abertamente anárquica, o filme segue duas jovens — Marie I e Marie II — que decidem que, se o mundo está estragado e corrupto, elas também serão estragadas. Entre banquetes destruídos, jogos de sedução moralmente provocatórios e pirotecnia surrealista, Chytilová assina um ataque libertador e intemporal à ordem estabelecida, à burocracia e ao conformismo social.

Elenco: Jitka Cerhová, Ivana Karbanová

Sessão:
Daisies (12 NOV: 14H00 / Culturgest (Pequeno Auditório))

Figura incontornável e provocatória do cinema de autor contemporâneo, a cineasta, romancista e argumentista francesa Catherine Breillat construiu uma filmografia radical dedicada a desmantelar os tabus em torno da sexualidade, do poder e do olhar. Incisiva na sua abordagem visual, Breillat apresenta o corpo feminino não como mero objeto de contemplação, mas como um campo de batalha político: um espaço simultâneo de exposição crua, vulnerabilidade e profunda resistência.

O LEFFEST dedica uma atenção especial à obra da realizadora com a exibição de dois dos seus títulos mais marcantes e díspares : No Verão Passado (L’Été dernier, 2023)   onde explora as fronteiras morais de uma paixão transgressora entre uma advogada e o seu enteado adolescente, e o perturbador e radical Anatomia do Inferno (Anatomie de l’enfer, 2004), ensaio visceral com Amira Casar e Rocco Siffredi sobre a fascinação e a repulsa masculinas perante o corpo da mulher.

A realizadora estará presente no festival para apresentar ambas as exibições e participar em conversas exclusivas com o público.

Elenco:
No Verão Passado: Léa Drucker, Samuel Kircher, Olivier Rabourdin, Clotilde Courau
Anatomia do Inferno: Amira Casar, Rocco Siffredi, Alexandre Belin, Manuel Taglang

Sessões:
No Verão Passado (12 NOV: 21H15 / Culturgest (Pequeno Auditório) (Com a presença da realizadora))
Anatomia do Inferno (13 NOV: 21H30 / Cinema São Jorge (Sala 3) (Com conversa com a realizadora Catherine Breillat))

Atriz com uma vasta carreira no cinema francês e europeu, Eva Ionesco estreou-se na realização de longa-metragem com Eu Não Sou a Tua Princesa (My Little Princess, 2011), uma obra profundamente íntima e dolorosa que estreou na Semana da Crítica do Festival de Cannes. O filme baseia-se na própria infância autobiográfica da cineasta e na relação controversa com a sua mãe, a famosa fotógrafa Irina Ionesco, que nos anos 1970 chocou o mundo da arte ao expor a filha ainda criança em retratos erotizados.

A narrativa acompanha Violetta, uma menina de 10 anos criada pela avó, cuja vida dá uma reviravolta quando a mãe, Hanna, uma artista excêntrica e boémia, decide transformá-la na sua musa. Rapidamente, as fotografias barrocas e arrojadas de Violetta fazem dela uma sensação no meio artístico parisiense dos anos 70, aprisionando-a num estrelato precoce e perverso. À medida que a fronteira entre a arte, a exploração infantil e o afeto materno se esbate, o filme expõe o pesadelo psicológico de uma infância roubada em nome da estética e da ambição.

Com desempenhos arrebatadores de Isabelle Huppert (no papel da mãe) e de Anamaria Vartolomei (que se estreou aqui com uma interpretação fantástica apenas com 12 anos), a obra afirma-se como um olhar inquietante sobre o consentimento, o poder da imagem e a hipersexualização precoce.

A realizadora estará presente no LEFFEST para acompanhar a sessão e participar numa conversa com o público.

Elenco: Isabelle Huppert, Anamaria Vartolomei, Georgetta Leahu, Denis Lavant

Sessões:
Eu Não Sou a Tua Princesa (13 NOV: 18H45 / Culturgest (Pequeno Auditório) (Com conversa com a realizadora Eva Ionesco))

Partilhamos aqui os eventos especiais, performances e Cine-Concertos:

A experiência do festival expande-se para lá da tela, ocupando palcos e salas com música ao vivo, escuta coletiva e leituras performativas de grande intensidade:

Fronteira do Medo – Listening Party (07 NOV: 21H00 / Teatro do Bairro): Sessão de escuta coletiva do podcast de investigação do coletivo Fumaça sobre o policiamento e a vida nos bairros marginalizados, seguida de debate.

Noite de Leituras Performativas (11 NOV: 22H00 / Teatro do Bairro): Uma noite imperdível de entrega e palavra falada com Leitura de Georges Bataille por Angélica Liddell, Leitura de Sade por Catarina Wallenstein e Leitura de Jean Genet por Béatrice Dalle.

Cine-Concerto: A Idade de Ouro / L’Âge d’or (12 NOV: 22H30 / Cinema São Jorge, Sala Manoel de Oliveira): O clássico surrealista e anticlerical de Luis Buñuel ganha uma nova vida com banda sonora inédita e interpretada ao vivo pelo duo Rodrigo Amado (saxofone) e David Maranha (percussão e órgão).

O LEFFEST 2026 reafirma-se como aquele ponto de encontro anual onde a cidade se deixa contagiar pelas histórias no ecrã, quanto incrível vai ser poder acompanhar de perto tantas realizadoras. Nós não vemos-no perder o nosso lugar, vemos nos lá?

PARTILHA