O ano musical começou com estrondo. Já sabíamos que vinha aí um novo projeto de um super-grupo português quando eles se apresentaram com dois singles em dezembro passado. Agora editaram o disco de estreia, no passado dia 6 e que é uma verdadeira uma declaração de intenções: curto, directo e punk como sugere o próprio título. A banda portuguesa reúne quatro veteranos da cena alternativa nacional — Quim Albergaria (na voz, conhecido de projectos como Bateu Matou e PAUS), André Henriques (guitarrista dos Linda Martini), Ricardo Martins (bateria, com passagens por Jibóia, Pop Dell’Arte ou Fumo Ninja) e Pedro Cobrado (baixista que passou pelos Meneater e If Lucy Fell) — e decidiu canalizar toda a sua experiência num formato seco, urgente e cheio de energia.
O nascimento dos Mães Solteiras parece ter sido quase casual: Ricardo Martins propôs a André Henriques uma banda punk porque “sentia falta de barulho”, André aceitou com a condição de que as canções fossem curtas e sem vocais excessivos, e depois convidaram Gaza (Pedro Cobrado) para o baixo, acabando por trazer Quim Albergaria para os gritos. Em poucos ensaios e treze músicas gravadas em apenas um dia e meio nasceu Vamos ser breves, uma colagem de ideias enérgicas que parecem inevitáveis depois de ler isto.
O disco, com cerca de 29 minutos distribuídos por treze faixas intensas, é um punk com um pé no hardcore — a velocidade, a concisão e a força estão lá em todas as linhas — mas também um retrato visceral do momento que vivemos. Os temas tratam de coisas muito concretas e muito presentes: a economia do cuidado, a precariedade laboral, a crise da habitação, a saúde privatizada, o populismo e as tensões sociais que marcam o quotidiano, como o patriarcado. Mas também contem momentos de humor, referências à cultura pop e um olhar afectuoso sobre o amor e as pequenas alegrias que continuam a existir apesar de tudo.
Há algo catártico no modo como esta banda, todos com experiências em cenas diversas e com carreiras já longas, se aproximam do punk depois dos 40: não é um regresso nostálgico aos anos 90, mas um reencontro com a urgência, com a necessidade de falar do “agora”, de rasgar o silêncio e de dizer tudo em menos de dois minutos e meio. Essa forma de trabalhar devolve ao punk aquele espírito primitivo de confronto, de comunidade, de presença física e emocional que tanta falta faz nos dias de hoje. Sem filtros, sem rodeios, e com refrões que convidam à união e à resposta colectiva, o punk sempre foi isso: uma música para se sentir junto de outras pessoas.
No final das contas, Vamos ser breves chega como um sopro de ar fresco na música portuguesa contemporânea: curto, cortante, honesto e demasiado barulhento para ignorar. É um disco incrível e que eleva a bitola bem alto neste novo ano que acabou de entrar.









