Mr. Nobody Against Putin é um documentário realizado por Pavel Talankin e David Borenstein, construído a partir de imagens captadas numa escola secundária na cidade industrial de Karabash, nos Montes Urais, Rússia. Talankin, professor e videógrafo escolar, tinha como função oficial filmar atividades educativas, eventos e cerimónias. Após a invasão da Ucrânia pela Rússia, em fevereiro de 2022, o seu papel mantém-se formalmente igual, mas o conteúdo muda radicalmente.
O Ministério da Educação russo introduz novas diretrizes ideológicas nas escolas. Surgem sessões obrigatórias de “educação patriótica”, palestras com veteranos e representantes militares, exercícios simbólicos com armamento e cerimónias que reforçam a narrativa oficial da guerra. Talankin continua a filmar tudo, como parte do seu trabalho. Ao mesmo tempo, começa a guardar cópias desse material e estabelece contacto remoto com o documentarista dinamarquês-americano David Borenstein, com quem desenvolve o projeto em segredo durante cerca de dois anos.
O filme utiliza exclusivamente imagens captadas pelo próprio Talankin, muitas vezes em contexto institucional. Não há entrevistas formais nem narração explicativa tradicional. A progressão narrativa resulta da acumulação de situações concretas: discursos em auditórios escolares, visitas de figuras associadas ao esforço militar, atividades educativas reformuladas e interações quotidianas entre alunos e professores.
Um dos elementos centrais do documentário é a forma como o ambiente escolar se adapta gradualmente às novas exigências políticas. Professores reproduzem o discurso oficial. Alunos participam em atividades com enquadramento militar. Símbolos nacionais e mensagens patrióticas tornam-se presença constante. O filme não apresenta oposição explícita dentro da escola, mas regista a normalização progressiva dessas práticas.
Talankin surge sobretudo através da sua voz e da sua presença indireta. Continua a desempenhar as suas funções, mas a sua decisão de preservar e partilhar o material transforma o registo institucional em testemunho documental. Em junho de 2024, deixa a Rússia, levando consigo o arquivo que constitui a base do filme.
Formalmente, o documentário mantém a qualidade e estética do material original, sem intervenção visual significativa. A montagem organiza cronologicamente os acontecimentos, permitindo observar a evolução do contexto escolar ao longo do tempo. Esta abordagem reforça o carácter observacional do projeto.
Mr. Nobody Against Putin estreou no Festival de Sundance, onde recebeu um Prémio Especial do Júri na categoria de documentário, e foi posteriormente distinguido com o BAFTA de Melhor Documentário e nomeado para o Óscar na mesma categoria. O reconhecimento internacional destacou o valor do filme enquanto registo direto do impacto das políticas estatais russas no sistema educativo durante o período da guerra.











