Há filmes que chegam com uma recomendação. NAZA chegou a Veneza com uma espécie de aviso prévio. Antes de grande parte das pessoas o ter visto, já se discutia o que era, o que mostrava, quem o tinha feito e, sobretudo, o que supostamente se deveria pensar sobre ele. Depois veio a estreia e 25 minutos de standing ovation na Sala Grande — a mais longa de sempre no Festival de Veneza — e o Prémio Especial do Júri.
Não é difícil perceber a reacção. Yuval Abraham e Rachel Szor, dois dos realizadores de No Other Land, vão buscar 24 antigos militares e elementos dos serviços de informação israelitas e põem-nos a falar, de rosto escondido, sobre aquilo que fizeram e viram durante a guerra em Gaza. A conversa acontece à noite, nos telhados de Telavive, como se até os próprios israelitas que falam soubessem que há coisas que é melhor dizer longe da luz do dia.
O mais perturbador em NAZA nem são necessariamente as revelações. É a linguagem. Há números, sistemas, aplicações, algoritmos, procedimentos, nomes de operações. Pessoas transformadas em informação e mortes transformadas em cálculo. A guerra aparece menos como uma explosão de violência do que como uma coisa que também pode acontecer sentada em frente a um computador, entre duas reuniões.
E depois há o título. NAZA é uma abreviatura usada no contexto militar para designar os civis que se prevê que morram num ataque. Uma palavra técnica para uma coisa que, fora daquele vocabulário, tem outro nome. O cinema já nos ensinou várias vezes que a burocracia pode ser assustadora. Aqui, basta ouvir quem esteve lá para perceber que não é preciso levantar a voz para dizer uma coisa monstruosa.
Mas NAZA também tem um problema: sabe exactamente aquilo que quer que sintamos. Não é um filme particularmente interessado em deixar zonas cinzentas. O massacre de 7 de Outubro e o sofrimento provocado pelo Hamas ficam praticamente fora do enquadramento, uma opção que tem sido criticada por antigos reféns e por outros críticos israelitas. O Exército israelita também contestou várias das alegações e a utilização de testemunhos anónimos.
Isso não torna automaticamente falso aquilo que os entrevistados contam. Mas torna o filme mais fechado do que poderia ser. E é pena. Porque o material que tem nas mãos é suficientemente forte para não precisar de tanta certeza.
O resto aconteceu quase sozinho. O ministro israelita da Cultura, Miki Zohar, chamou aos realizadores traidores e ameaçou avançar para a retirada da sua cidadania. Benjamin Netanyahu também atacou o filme. Abraham disse temer não conseguir regressar a Israel.
É difícil imaginar melhor publicidade para um documentário.
No fim, fica aquela sensação pouco agradável de ter visto qualquer coisa que não nos apetece propriamente discutir ao jantar. NAZA deixa vontade de perguntar: como é que se consegue continuar a viver normalmente depois de aprender a falar assim sobre a morte de outras pessoas?