Entra-se à espera de uma coisa gira e sai-se com outra, mais estranha, quase uma alegria: ver os “senhores do teatro francês” a fazerem figuras tristes e perceber que é por isso mesmo que se gosta deles.
A história de A Comédia Francesa, filme em estreia esta semana, cabe numa linha. Nina (Pauline Clément), atriz da casa, estreia a sua primeira encenação e tem três horas para segurar um espetáculo que se desfaz: a Lady Macbeth está presa num comboio, os adereços avariam, há quem esteja de ressaca e há quem tenha medo do palco. E existe, sagrada, a regra da casa: nunca se cancela. Daí a corrida. Nina é daquelas pessoas simpáticas que dizem sim a tudo, e o filme passa o tempo a mostrar-lhe a conta.
O que apanha desprevenido é a ternura. Os realizadores Bertrand Usclat e Martin Darondeau não gozam com ninguém de cima. Há troça, claro, o filme ri-se do dourado, dos bustos, das etiquetas com séculos, mas com o carinho de quem é fã. O próprio Usclat diz que a sua legitimidade é não pertencerem à casa, e vê-se: olham com os olhos de quem entrou lá deslumbrado e ficou a olhar. No genérico, por baixo do nome deles, lê-se “(não) da Comédie-Française”. Pequena piada, grande tese.
Também ajuda não ter sido improvisado de qualquer maneira. Fizeram dezenas de entrevistas a atores da casa e ouviram histórias bem mais doidas do que as que couberam, o que se nota num ou noutro pormenor verdadeiro demais para ser inventado: a figurinista que diz a uma atriz que engordou ou perdeu peito, sem rodeios, porque trabalha ao centímetro; a maquilhadora da televisão que chega a um sítio onde nada funciona como lá fora e se sente um pouco humilhada por não conhecer os códigos…
O ego dos atores, que seria o alvo fácil, é tratado com mais cuidado do que se esperava. Fica uma ideia: o ego é a única coisa que resta ao ator quando toda a gente opina sobre o seu trabalho, e a resposta é infantil e comovente, sou eu, deixem-me decidir. Dito assim, deixa de ser defeito e passa a ferramenta.
O elenco é um luxo desproporcionado: cerca de vinte atores da companhia aceitaram sem pestanejar, até para papéis pequeníssimos. Guillaume Gallienne, como porteiro minucioso, aparece pouco e rouba tudo. Benjamin Lavernhe faz de Molière e leva o filme a uma cena que parece o grito do coração dos realizadores, a de quem se pergunta se vai conseguir, cheio de medo. Foi rodado em três semanas, numa sala que ia fechar para obras, e há pressa em cada plano.
Nem tudo é redondo. Nina pesa menos do que as figuras à volta, e há momentos em que a farsa corre mais depressa do que as personagens. Mas é o defeito de quem tem muito para mostrar em 75 minutos. O filme, de resto, levou quatro prémios no Festival de Alpe d’Huez, mais do que qualquer outro numa só edição.
Sai-se do cinema com vontade de ver teatro. Não é pouco.