“Pillion”: O amor como negociação

Eduardo Marino

Uma comédia romântica fora do comum que mistura ternura, dominadores de couro e a eterna pergunta: afinal quem manda em quem?

Quando apareceu no Festival de Cannes, Pillion rapidamente ganhou fama de “aquele filme”. O que mistura romance com dinâmica BDSM sem pedir desculpa por isso — e ainda arranca gargalhadas. Não é coisa que apareça todos os dias num festival que, por tradição, leva os seus dramas bastante a sério.

Realizado por Harry Lighton, o filme adapta o romance Box Hill, de Adam Mars-Jones, e acompanha um protagonista que entra numa relação dominador/submisso de forma quase acidental. O título vem da gíria motard: o “pillion” é quem vai sentado atrás na mota, agarrado ao condutor. Uma metáfora que o filme usa sem grande subtileza — mas também sem vergonha.

A história centra-se em Colin (Harry Melling), um jovem algo perdido, sem grande direção na vida, que acaba por se envolver com Ray (Alexander Skarsgård), um motard mais velho, seguro de si e habituado a liderar. O encontro transforma-se rapidamente numa relação marcada por regras claras: quem manda, quem obedece e como se organiza a intimidade entre os dois.

Mas Pillion não é propriamente um manual BDSM filmado. O que interessa ao filme é outra coisa: como duas pessoas tentam negociar poder, afeto e identidade dentro de uma relação que foge às convenções românticas mais previsíveis.

É aqui que o filme encontra o seu tom mais curioso. Em vez de dramatizar ou moralizar, Lighton opta por uma abordagem quase casual. Há humor, há desconforto e há aquela sensação de que ninguém ali percebe totalmente o que está a fazer — o que, sendo honestos, também define metade das relações amorosas fora do ecrã.

Em Cannes, essa mistura de comédia romântica e universo fetichista transformou o filme numa pequena sensação. Não tanto pelo choque (o cinema já viu coisas bem mais escandalosas), mas pela forma leve com que trata o tema. Pillion prefere observar as suas personagens com curiosidade em vez de as explicar.

O resultado é um filme que joga entre dois registos: por um lado, a história clássica de alguém que descobre quem é através de outra pessoa; por outro, uma comédia ligeiramente absurda sobre regras, coleiras metafóricas e a estranha coreografia do desejo. Nem sempre perfeita. Mas raramente aborrecida.

Partilha

TAGS