Em Pluribus, disponível na Apple TV+, Vince Gilligan volta a fazer aquilo que melhor sabe: pegar numa premissa de género e usá-la para falar de comportamento humano. O vírus que atravessa a série não mata, não provoca sintomas físicos evidentes e não gera pânico imediato. O que faz é mais subtil e, por isso mesmo, mais perturbador: altera a forma como as pessoas sentem empatia, lidam com o conflito e se posicionam no coletivo. Os infetados tornam-se mais conciliadores, mais disponíveis para o consenso, menos dados ao atrito. O mundo fica aparentemente melhor — mas também estranhamente achatado.
Carol, a personagem de Rhea Seehorn, é uma das poucas pessoas imunes. Escritora, solitária, declaradamente misantropa, Carol nunca teve grande paciência para a vida em comunidade. Observa mais do que participa, prefere o isolamento à pertença e não tem qualquer interesse em “funcionar melhor” em grupo. É precisamente por isso que rema contra a maré quando todos à sua volta começam a mudar. Onde os outros se tornam mais suaves, Carol permanece áspera. Onde o vírus apaga o conflito, ela insiste em vê-lo.
O primeiro episódio é exemplar a estabelecer este tom. Acompanhamos Carol no quotidiano: a escrita, as interacções sociais mínimas, a sensação de que algo está ligeiramente fora do lugar. Não há grandes acontecimentos, apenas pequenas discrepâncias — respostas demasiado empáticas, conflitos que se resolvem depressa demais, uma normalidade que começa a soar artificial. Gilligan não explica tudo de imediato, prefere deixar o espectador sentir o incómodo antes de o compreender.
Rhea Seehorn está extraordinária neste registo contido. A sua Carol é feita de silêncios, de tensão corporal, de uma inteligência defensiva que nunca pede desculpa. Depois de Better Call Saul, onde já tinha mostrado ser muito mais do que coadjuvante de luxo, esta é finalmente a série que a coloca no centro. O prémio de Melhor Atriz nos Critics Choice Awards, atribuído recentemente, soa menos a consagração tardia e mais a correção de um erro antigo.
O ritmo de Pluribus é lento e isso cria resistência. Há quem se afaste por sentir que a série demora a ir “ao assunto”. Mas essa lentidão é parte do comentário: o vírus não chega com estrondo, infiltra-se. Tal como o desconforto moral que Gilligan sempre explorou, desde os tempos em que começou a carreira a escrever episódios de The X-Files, passando depois por Breaking Bad e Better Call Saul.
Com a segunda temporada já garantida, Pluribus afirma-se como uma das séries mais interessantes do último ano — não por ser imediata ou consensual, mas por insistir na fricção. E por dar finalmente a Rhea Seehorn uma personagem que não pede licença para existir.











