Há sempre desconfiança quando um filme chega com o selo “do autor de The Martian”. Normalmente traduz-se em déjà vu com orçamento maior. Mas aqui não. A adaptação de Project Hail Mary, de Andy Weir, não tenta reinventar a roda nem vender profundidade onde há sobretudo engenho.
A premissa é simples o suficiente para não se perder em floreados: um professor de ciências acorda sozinho numa nave, sem memória de como lá chegou, com a vaga noção de que a Terra está em risco e que, de alguma forma, ele é a última hipótese. A partir daí, o filme faz o que tem a fazer — cada fragmento de memória recuperado não é só exposição, é mais uma peça de um puzzle que claramente foi má ideia desde o início.
No meio desse isolamento quase clínico, surge o elemento que podia deitar tudo a perder e acaba por ser o melhor trunfo: o encontro com um alienígena. Não é um vilão, não é uma ameaça, não é sequer “humano o suficiente” para facilitar. É estranho, mesmo estranho — na forma, na comunicação, na lógica. Em vez de cair no cliché da amizade instantânea, o filme constrói uma relação feita de tentativa, erro e tradução literal. Primeiro aprende-se a comunicar, depois talvez se aprenda a confiar.
Essa relação funciona porque nunca é sentimental à força. É prática. Dois seres, de origens completamente diferentes, com um problema em comum e tempo limitado. A ligação nasce mais da necessidade do que da empatia, mas evolui para algo mais interessante: uma espécie de respeito funcional que, aos poucos, ganha peso emocional.
No centro está Ryan Gosling, a fazer aquilo que lhe sai melhor: parecer ligeiramente deslocado enquanto segura o filme. Não é um herói clássico nem um génio inacessível. É alguém que claramente percebe muito mais de ciência do que de si próprio, e essa fricção dá-lhe vida. Há humor, mas não é punchline atrás de punchline; surge mais como mecanismo de sobrevivência do que como tentativa de agradar.
A adaptação acerta onde muitas falham: percebe que o interesse do livro não está só no “o que acontece”, mas no “como é que se chega lá”. E isso passa para o ecrã sem parecer aula. Há decisões visuais simples, montagem funcional e zero vontade de complicar o que já é suficientemente exigente. Não tenta parecer mais inteligente do que é — e, ironicamente, é isso que o torna eficaz.
Também ajuda o facto de não se levar demasiado a sério. Há momentos em que o filme quase admite: isto é absurdo, mas vamos com isto até ao fim. E o público vai. As bilheteiras confirmam, a crítica alinha, e de repente temos um raro consenso: um blockbuster que não trata quem está a ver como distração de fundo.
Realizado por Phil Lord e Christopher Miller, o filme mantém o ritmo afinado e a leveza suficiente para nunca deixar a ciência pesar mais do que a história.










