“Rental Family”: afetos por aluguer e emoções a prestações

Eduardo Marino

Há filmes que sabem exactamente ao que vêm e não tentam ser outra coisa. Este é daqueles que entra de mansinho, pede empatia e sai com um abraço.

Apresentado no Festival de Toronto, onde arrancou algumas lágrimas aqui e ali, Rental Family assume-se sem grandes rodeios como um people pleaser. E não há nada de errado com isso. O problema começa quando o filme parece demasiado consciente desse papel e carrega um pouco mais no botão do sentimento do que seria preciso.

Brendan Fraser, no seu primeiro papel depois do Óscar de Melhor Ator com The Whale. lidera a história com a serenidade que se tornou a sua imagem de marca nesta fase da carreira. Interpreta um homem que trabalha numa empresa japonesa que “aluga” familiares a quem precisa de preencher vazios emocionais — uma premissa curiosa, com potencial para caminhos mais ambíguos, mas que o filme prefere manter num registo seguro. A realização de Hikari nunca arrisca verdadeiramente o desconforto, optando antes por uma abordagem linear, acessível e fácil de seguir.

Há momentos que funcionam bem, sobretudo quando o filme abranda e se concentra no quotidiano destas relações “alugadas”: situações encenadas, conversas banais que começam por ser trabalho e acabam por ganhar intimidade real, ou o simples silêncio partilhado entre pessoas que sabem que aquilo tem prazo. Nessas cenas, Rental Family deixa espaço para o espectador perceber o desconforto e a carência sem grandes explicações.

O problema é que o filme raramente confia nesses momentos. Sempre que uma ligação começa a ganhar espessura — seja entre o personagem de Brendan Fraser e uma “família” que o contrata, seja no confronto entre o que é pago e o que começa a ser sentido — surge música sublinhada, diálogos explicativos ou cenas prolongadas até à lágrima inevitável. Em vez de deixar a ambiguidade trabalhar, o filme prefere explicar o que estamos a sentir. A emoção está lá, mas vem com manual de instruções.

Ainda assim, é difícil implicar em demasia com um filme que sabe ser fofinho sem vergonha disso. Não pretende reinventar nada, nem levantar grandes questões morais. Quer apenas contar uma história sobre solidão, pertença e afetos improvisados — e cumpre.

Rental Family é uma boa opção para uma matiné de fim de semana, especialmente em família. Um filme simpático, de fácil digestão, que não fica muito tempo depois de acabar, mas que durante a sessão faz companhia. E, às vezes, isso chega.

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