REPORTAGEM | Kelela acende Marvila com guitarras, fumo e um novo avatar.

Kelela chegou envolta em fumo e mostrou-nos onde acaba o R&B e começa tudo o resto. No Lisboa ao Vivo, na quarta-feira, em hora e meia de concerto repartida por quatro atos, a cantora norte-americana abriu a digressão europeia de new avatar live com uma sala cheia de fãs em devoção.

Quando Kelela subiu ao palco do Lisboa ao Vivo, no passado dia 21 de outubro, o fumo já cobria tudo e as luzes recortavam-lhe a silhueta. Foi o arranque da digressão europeia de new avatar live, e foi também um concerto de cerca de hora e meia, dividido em quatro atos, em que a cantora norte-americana mostrou que o R&B de vanguarda cabe, sem desconforto, ao lado de guitarras distorcidas e de pulsação de clubbing. A sala, repleta de fãs que sabiam as letras de cor, respondeu como quem esperava este encontro há muito tempo.

Antes dela, coube a Liim aquecer o público. O rapper e músico de Harlem, Nova Iorque, deu o primeiro balanço da noite, e fê-lo como artista emergente com espaço para se afirmar.

Natural de Washington, D.C., com raízes etíopes, Kelela construiu o seu percurso à margem das categorias. Do mixtape Cut 4 Me (2013) ao EP Hallucinogen (2015), em que “Rewind” foi apontada pelo New York Times como uma das canções que mostravam para onde a música caminhava, tem sido uma das vozes que mais ajudaram a redefinir o R&B alternativo e a eletrónica de pista. new avatar, o terceiro álbum, editado em julho pela Warp, volta às origens no meio indie de D.C. e admite abertamente o rock e o shoegaze. Em Lisboa viu-se, e ouviu-se, o que isso dá em palco.

O fumo e o jogo de luzes serviram de ambiente a uma Kelela que usou o espetáculo como laboratório, a investigar o género e a pôr em prática as experimentações que atravessam cada um dos seus discos. É um concerto pensado como percurso, e a divisão em atos ajuda a perceber a lógica.

O primeiro ato abriu com a remistura de “Fooley” por LEECH Ambient Queen e passou por “goin down”, “idea 1” e “Happy Ending”, antes de chegar a “Rewind” num rearranjo de guitarra. Esta é uma das marcas desta digressão: a canção que nasceu de sintetizadores e caixas de ritmos ganhou uma pele nova, mais suja e mais física. O segundo ato, com “against me”, “crystalize”, “A Message” e o encadeado “Send Me Out / When It’s All Over”, foi o mais contido. No fim dele, Kelela dirigiu-se ao público pela primeira vez, para agradecer emotivamente a quem a acompanha nestas aventuras sonoras e na vontade de explorar sempre novas paisagens.

O terceiro ato foi o mais denso: “the bridge”, “Bank Head”, “All the Way Down” (outra vez em versão de guitarra), “outta time” com um vamp prolongado e “don’t piss me off”. O quarto trouxe a pista de dança, com “Turn to Dust”, a edição de “The High” (com o fundo sonoro de “Teardrop” dos Massive Attack), “Sorbet” e duas versões de “linknb”, a remistura de TRAPS N TREES e a original. Foi a parte do concerto em que a sala mais se pareceu com um clube de dança.

O encore guardou o momento mais sentido. Em “if we meet again”, Kelela pediu as lanternas dos telemóveis acesas, e pediu-o com um “eu sei que é corny” que desarmou qualquer resistência. A sala encheu-se de luz. Foi também aqui que Kelela deixou o recado mais político da noite: referindo-se ao acampamento do Rossio, defendeu que cada pessoa devia poder, com o seu ordenado, pagar a renda. Dito a meio de um momento de celebração, o alerta soou a lembrete de que a música também serve para olhar de frente a realidade social. O fecho foi com a muito celebrada “Contact”, na versão original e acompanhada de “One In A Million”.

Quando as luzes se acenderam e o fumo começou a dissipar-se, ficou a sensação de que o concerto tinha sido mais do que a apresentação de um álbum. Kelela veio a Lisboa mostrar um novo avatar (numa digressão que vai passar por dez países europeus) e saiu a deixar uma pergunta no ar, a de quem decidiu que as guitarras, a pista e o R&B tinham de viver separados. Em Marvila, naquela noite, ninguém parecia ter a resposta, nem precisar dela.

* fotografia de Neva Wireko

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