Na primeira de duas datas esgotadas, Rosalía trouxe a “Lux Tour” e não perdeu tempo a esclarecer ao que vinha. Logo à entrada, com uma orquestra de vinte músicos instalada no centro da sala — a Heritage Orchestra, conduzida por uma muito enérgica Yudania Gómez Heredia — percebeu-se que isto não ia ser só um alinhamento de hits. Felizmente.
O espetáculo, tal como o álbum “LUX”, dividiu-se em quatro atos, mas nunca soou a exercício académico. Flui. Começa com uma Rosalía quase imóvel, saída de uma caixa como uma bailarina mecânica, e vai abrindo, camada a camada. A abertura com “Sexo, Violencia y Llantas” dá logo o tom, mas é quando a voz começa a ganhar espaço — em temas como “Reliquia”, “Porcelana” e especialmente “Mio Cristo Piange Diamanti” — que a coisa assenta. E a partir daí não há outra hipótese do que nos entregarmos de corpo e alma.
Há momentos em que parece que estamos num teatro, outros em que tudo descamba para pista de dança – bastava “Berghain” com a sua rave final para justificar o preço dos bilhetes . Um minuto estamos a ver referências que podiam sair de um quadro, no outro estamos a pensar há quanto tempo não saímos à noite. E funciona porque Rosalía nunca força essas mudanças — liga tudo com uma naturalidade que desarma.
Curiosamente, uma das coisas mais evidentes foi o silêncio do público. Menos telemóveis no ar, menos distração, do que é habitual nestes novos tempos. Não porque não apetecesse registar o momento, mas porque não apetece perder nada. Há ali uma tensão constante que se mantém quase duas horas.
O alinhamento mistura o novo disco, “LUX”, com regressos ao passado, mas nada entra ali só para cumprir calendário. “Saoko” ou “Bizcochito” aparecem transformadas, com outro peso, enquanto coisas mais escondidas como “Novia Robot” ou “Focu ‘ranni” (presentes apenas na versão em vinil do último disco) surpreendem quem não estava à espera. Pelo meio, ainda há espaço para respirar — e até rir — com o momento do confessionário, que quebra a intensidade sem a estragar.
E depois, o momento inédito nesta tour, e que o público português estava ansiosamente à espera. Iria acontecer ou não? Carminho aparece no meio do público e, de repente, “Memória” é cantada sem grande aparato, quase despido, como se tudo o resto deixasse de importar por minutos. No final, ficam abraçadas, mais do que uma vez, enquanto a ovação cresce à volta. Já sozinha em palco, Rosalía confessa: “Quando esta mulher canta, parte-me em duas.”
A partir daí, o concerto voltou a crescer. A eletrónica entra com mais força, o incensário gigante atravessa a sala, reforçando a dimensão simbólica que atravessa todo o concerto, onde referências religiosas, clássicas e contemporâneas coexistem sem hierarquia clara. Esta parte encerra com uma dança frenética da maestrina cubana.
No fim, o que fica não é só a ideia de um grande concerto. É a sensação de ter visto alguém com uma visão muito clara do que quer fazer — e com meios para o fazer acontecer. Sem cair em exageros, sem momentos mortos, sem aquela sensação de “ok, isto podia ter sido mais curto”. Foi direto, intenso, mágico.











