O novo filme de Joachim Trier tornou-se rapidamente um dos títulos centrais do ano. Depois de um percurso sólido em festivais e prémios internacionais, chega aos Óscares com nove nomeações, incluindo Melhor Filme, Melhor Realizador, Melhor Atriz, Melhor Atriz Secundária (duas nomeações), Melhor Ator Secundário e Melhor Filme Internacional. É, neste momento, um dos favoritos tanto na categoria internacional como na de ator secundário, confirmando a maturidade de um realizador que há muito deixou de ser promessa.
A história gira em torno de duas irmãs que reencontram o pai, um realizador de cinema ausente durante grande parte das suas vidas. Stellan Skarsgård interpreta esse pai com um equilíbrio desconfortável entre charme e ego, num papel cheio de camadas que explica o destaque que tem recebido nesta temporada. Renate Reinsve, presença central no cinema de Trier, surge aqui como atriz de teatro, carregando uma relação mal resolvida com o passado e com a figura paterna. Quando o pai decide regressar ao cinema com um projeto pessoal e vê a filha recusar o convite, a entrada de uma atriz americana, interpretada por Elle Fanning, acaba por reabrir feridas que nunca chegaram a fechar.
Sentimental Value é, à superfície, um drama familiar, mas interessa sobretudo pelo que deixa implícito. Trier filma silêncios, desconfortos e pequenas tensões com a mesma atenção que outros reservam para grandes confrontos. O filme fala de heranças emocionais, daquilo que se transmite sem intenção e da forma como a arte pode funcionar como tentativa de redenção ou como mais um gesto falhado.
As influências do cinema e da literatura nórdica estão lá: a contenção emocional, o foco nas personagens, a ideia de que o passado é uma presença constante. Mas Trier não faz cinema de museu. Há um diálogo claro com o presente e com a própria ideia de criação artística, usando o cinema dentro do cinema como espelho das relações familiares.
Na filmografia do realizador, este filme encaixa naturalmente ao lado de Reprise, Oslo, 31 de agosto e The Worst Person in the World. Mantém o interesse pelo tempo interno das personagens, mas amplia o campo, cruzando gerações e explorando a família como espaço de afeto, ressentimento e expetativa. É um filme menos explosivo do que parece, mais interessado em acumular tensão do que em resolvê-la.
O reconhecimento que tem recebido não vem de excessos nem de truques emocionais fáceis. Sentimental Value aposta num cinema adulto, atento e paciente, que confia no espectador e recusa respostas simples. Num ano cheio de filmes a pedir atenção, este destaca-se por fazer exatamente o contrário: fala baixo, mas fica.










