O dispositivo do filme é simples e devastador. A voz que escutamos é a voz real de Hind Rajab, uma criança presa numa situação extrema, cuja chamada telefónica serve de fio condutor a toda a narrativa. Não se trata de uma dramatização ficcionada no sentido clássico: o filme constrói-se a partir do registo real da chamada e da recriação minuciosa da tentativa de salvamento por parte da equipa de emergência. Esta escolha coloca o espectador num estado permanente de alerta, quase físico, do início ao fim.
A sua estreia no 82.º Festival Internacional de Cinema de Veneza marcou o certame: a projeção foi recebida com uma ovação de pé que se prolongou por cerca de 20 a 23 minutos, um dos aplausos mais longos registados na história do festival, e o filme conquistou o Leão de Prata – Prémio do Grande Júri, entre outras distinções.
Durante a projeção, não sentimos apenas tristeza: sobra indignação e impotência. A sala de cinema tende a ficar em silêncio completo, não por respeito formal, mas porque o impacto é profundo demais para palavras imediatas — um efeito relatado por muitos espectadores. Esta reação coletiva diz muito sobre a forma como o filme nos coloca frente a uma realidade que, de outra forma, parece longínqua e abstracta.
O filme obriga-nos a confrontarmo-nos com a crueldade do mundo e a nossa própria passividade diante dela. The Voice of Hind Rajab não oferece conforto, nem procura encobrir a dura realidade do conflito retratado. Em vez disso, convida o público a escutar — sem filtros, sem evasões — o apelo de uma criança cuja voz, muito para além das imagens, ecoa na nossa consciência muito depois do término dos créditos.
The Voice of Hind Rajab instala-se na mente do espectador como mais do que um filme: é um ato de testemunho que transcende os limites do cinema tradicional. Realizado por Kaouther Ben Hania, a obra — uma coprodução tunisino-francesa — foi nomeada para Melhor Filme Internacional como entrada oficial da Tunísia aos Óscares de 2026.











