“Tony”: o homem antes da lenda

Matt Johnson troca a biografia de uma vida inteira por um único verão de 1975 e encontra, no jovem insuportável que lava loiça em Provincetown, o homem que viria a ser Anthony Bourdain. Dominic Sessa e Antonio Banderas sustentam um filme pequeno, mas generoso.

Se o espectador espera o Bourdain de blusão de cabedal, de cigarro no canto da boca e de opinião afiada sobre tudo, o filme tem o prazer perverso de o receber com outro: um miúdo de 19 anos, magricela, vaidoso, convencido de que é um génio literário, que inventa uma bolsa de escrita que não ganhou e persegue uma paixão de liceu até Provincetown. Acaba a lavar tachos numa cozinha de marisco, suja, quente, barulhenta e gloriosamente caótica, e é aí, entre ostras mal abertas e gritos de chef, que descobre a vocação.

Tudo gira à volta de um verão e de dois pólos opostos: o Chef de Antonio Banderas, mentor severo, elegante e quase paternal, e o Sal de Leo Woodall, colega hedonista, bruto e perigosamente simpático. Tony (um ótimo Dominic Sessa) desengonçado e fanfarrão, vai aprendendo que a pose não paga a renda. O filme toma liberdades descaradas, com o próprio realizador a admitir ter comprimido vários verões de Bourdain num só.

As interpretações são o prato forte. Sessa constrói um Tony tonto, arrogante, às vezes verdadeiramente irritante, mas com uma fragilidade a ferver por baixo da fanfarronice. Banderas rouba cenas com a sua serenidade.

É um filme de princípios, e os princípios sabem diferente quando conhecemos o fim. Bourdain nasceu em 1956, em Nova Jérsia, estudou no Culinary Institute of America e cozinhou durante anos em Nova Iorque, até Kitchen Confidential (2000) o catapultar para a fama com uma crónica ásper e divertida dos bastidores dos restaurantes. Vieram depois os programas de televisão, de A Cook’s Tour a Parts Unknown, na CNN, onde fez da comida uma desculpa curiosa para conhecer gente. Distinguia-o a escrita irónica, a curiosidade sem sobranceria e a birra contra o glamour gastronómico. Morreu em junho de 2018, em França, por suicídio, aos 61 anos, e a notícia deixou um vazio enorme em quem o seguia.

O filme acerta ao não tentar explicar esse fim pelo começo: não pretende justificar a morte com a juventude. Fica um retrato afetuoso, malcriado e desarrumado de um rapaz que ainda não sabia quem ia ser.

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