“Urchin”: a estreia de Harris Dickinson atrás da câmara

Eduardo Marino

Um mergulho cru e estranho pela vida de quem vive à margem, que entregou a Frank Dillane uma das interpretações mais elogiadas de Cannes.

Urchin é a primeira vez que Harris Dickinson se aventura a sério na realização, e a verdade é que o ator de Triangle of Sadness – e que foi escolhido por Sam Mendes para interpretar, nada mais nada menos, do que John Lennon nos quatro filmes que está a fazer sobre os Beatles -, não veio brincar. O filme, que passou por Cannes com óptimas reacções, acompanha Frank Dillane como Mike — um vagabundo a viver nas ruas de Londres, preso entre vícios, tentativas falhadas de recomeço e aquela sensação de que o mundo segue sem olhar para trás.

A narrativa não tem grandes explosões nem reviravoltas de festival: é o dia-a-dia duro, cheio de pequenos avanços e muitos recuos. Mike tenta safar-se, mete-se em sarilhos, cruza-se com pessoas que o ajudam e outras que só lhe puxam o tapete. Pelo meio, Dickinson espeta ali umas cenas meio oníricas, uns delírios visuais que dão ao filme um toque de fábula urbana — nada demasiado pesado, mas o suficiente para nos pôr a pensar se aquilo é realidade ou só o cérebro do protagonista a tentar sobreviver.

Dillane carrega o filme às costas, e percebe-se porque é que levou o prémio de Melhor Actor na secção Un Certain Regard em Cannes. É uma performance crua, cheia de micro-expressões, como se ele estivesse sempre a um centímetro de se perder de vez. O elenco secundário — Megan Northam, Karyna Khymchuk, Shonagh Marie, Amr Waked, e até uma participação do próprio Dickinson — funciona como ecos do mundo de Mike, cada um trazendo mais uma camada ao caos em que ele vive.

Visualmente, o filme é próximo da pele: câmara rente, som áspero, aquela Londres húmida que quase sentimos nos ossos. Dickinson não cai no dramatismo barato, mas também não tenta dourar a pílula. É cinema social com umas pinceladas de sonho — uma mistura arriscada, mas que nesta estreia funciona surpreendentemente bem.

No fim, Urchin deixa aquela sensação agridoce: não é um filme “bonito”, mas é um filme vivo, honesto, e com momentos que ficam a martelar na cabeça. Para primeira obra, Dickinson mostra mão firme, bom olho e, acima de tudo, um respeito enorme pelas pessoas de quem está a falar. Uma estreia a ter debaixo de olho.

Partilha

TAGS