“Hedda” reinventa Ibsen numa só noite

Eduardo Marino

Numa única noite, entre o amor, o controlo e o colapso, Hedda confronta-se com tudo o que tentou esconder. A clássica tragédia de Ibsen ganha uma nova pele.

Na nova versão de Hedda, Thessa Thompson veste a pele da anti-heroína de Henrik Ibsen, mas esta não é a mulher vitoriana presa num casamento burguês que conhecemos dos palcos. Aqui, a realizadora Nia DaCosta (também argumentista) condensa a peça original numa única noite e transfere o seu centro de gravidade para o interior de uma relação entre duas mulheres — uma Hedda queer, contemporânea, sem o véu da convenção social, mas ainda encurralada pelas mesmas forças invisíveis que a corroem por dentro.

O filme, disponível na Amazon Prime Video, funciona quase como uma câmara de pressão. Tudo se passa numa mesma casa, onde Hedda (Thessa Thompson) e Thea (interpretada com subtileza por Imogen Poots) passam uma noite a tentar, cada uma à sua maneira, reescrever o que resta das suas vidas. Nina Hoss surge como uma presença magnética — uma editora mais velha e antiga amante de Hedda —, cuja chegada faz implodir o frágil equilíbrio entre desejo, ciúme e poder.

Ao contrário da peça de Ibsen, que se desenrola em vários dias e tem um tom quase moralista, Hedda de DaCosta é uma experiência emocional intensa e concentrada. A ação decorre numa única noite, num espaço limitado, e o tempo torna-se uma força física: os silêncios pesam, as pausas são mais eloquentes que os diálogos. Essa condensação transforma a tragédia clássica numa espécie de thriller psicológico íntimo — um jogo de sedução, culpa e controlo, em que a manipulação surge frequentemente.

A reinterpretação lésbica não é apenas um detalhe de casting: é a lente através da qual tudo é relido. A relação entre poder e desejo, central em Ibsen, ganha aqui uma outra camada.

Thessa Thompson oferece uma performance contida, quase clínica, que só se quebra em breves momentos de vulnerabilidade, enquanto Imogen Poots traz um contraponto frágil, de quem tenta manter a dignidade perante o caos. Nina Hoss, por sua vez, eleva cada cena onde entra — o seu olhar basta para fazer o ar da sala mudar de temperatura.

No final, a câmara não nos mostra uma libertação, mas um colapso silencioso. A tragédia de Ibsen sobrevive — só muda de corpo. E nesta versão, passada numa noite só, o inferno é o tempo que demora a perceber que já não há saída.

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