Secret Love chegou como um dos primeiros álbuns de 2026. Quem o trouxe foram os Dry Cleaning, e de forma muito pertinente. Formados em Londres em 2017 por Florence Shaw, Tom Dowse, Lewis Maynard e Nick Buxton, a banda ganhou rapidamente identidade própria com uma combinação instrumental angular e uma voz falada, seca e observacional, muito particular de Shaw. Depois do impacto de New Long Leg (2021) e da afirmação mais expansiva de Stumpwork (2022), este terceiro álbum surge como um passo natural de aprofundamento, menos preocupado em surpreender e mais focado em explorar novas subtilezas dentro do seu próprio universo.
Uma das mudanças mais significativas está na produção, agora a cargo de Cate Le Bon, cuja influência se sente numa abordagem mais textural e menos rígida. As gravações, feitas entre Londres, Chicago, Dublin e França, resultam num disco que soa mais orgânico e, ao mesmo tempo, mais atmosférico. As guitarras continuam nervosas, mas deixam espaço para drones, camadas electrónicas discretas e momentos de maior fluidez rítmica, enquanto o baixo e a bateria ganham uma elasticidade que nem sempre estava presente nos trabalhos anteriores.
A voz de Florence Shaw mantém aquele tom deadpan que se tornou imagem de marca da banda, mas aqui surge mais flexível e também mais expressiva. Em vários momentos, a entrega aproxima-se do canto, criando uma sensação de intimidade que contrasta com a habitual distância irónica. As letras continuam a partir do quotidiano, misturando observações banais, humor estranho e reflexões sobre relações, confiança e alienação, mas com um tom menos sarcástico e mais contemplativo.
Secret Love mostra uma banda confortável a testar limites. Encontramos ecos de funk, psicadelismo contido e até folk abstracto, sempre filtrados pelo esqueleto post-punk que tudo sustenta. Esta abertura não dilui a identidade dos Dry Cleaning, antes pelo contrário, reforça a ideia de um grupo que assume que já não precisa de provar nada e que se pode dar ao luxo de experimentar com calma.
No final do dia, Secret Love soa a maturidade. Não tem o choque imediato da estreia nem a expansão quase exuberante do segundo disco. Compensa antes com profundidade e coesão. É um álbum que revela uma banda mais segura, mais subtil e mais interessada em explorar nuances emocionais, com coerência e consistência.










