Together Pangea – Eat Myself (2026)

Francisco Pereira

'Eat Myself' é o novo álbum dos Together Pangea, editado a 16 de janeiro, e marca uma evolução no som da banda californiana.

Eat Myself dos Together Pangea é um novo disco que foi lançado a 16 de janeiro passado e marca mais um capítulo na longa e sempre imprevisível história de uma banda que passou de projectos DIY em Los Angeles para um lugar respeitado no rock alternativo contemporâneo. Formados em Santa Clarita, Califórnia, em 2009, pelo vocalista e guitarrista William Keegan, pelo baixista Danny Bengston e pelo baterista Erik Jimenez, os Together Pangea construíram a sua reputação no underground com concertos ruidosos e uma energia que misturava garage punk, surf rock e rock alternativo desde o primeiro álbum, Jelly Jam (2010), passando por Living Dummy (2011), Badillac (2014), Bulls and Roosters (2017) e DYE (2021), até às versões acústicas e projectos paralelos que mantiveram a banda activa nos últimos anos.

Eat Myself surge como o sexto álbum de estúdio da banda e representa uma evolução curiosa no seu som: longe do garage rock cru dos primeiros tempos, o disco incorpora agora influências mais amplas de shoegaze, alt-rock e texturas sonoras mais densas, mantendo, ainda assim, a pulsação visceral que sempre os caracterizou. Para isso contribui bastante a visão do produtor Mikey Freedom Hart, que ajudou a moldar um álbum que equilibra a energia directa com ambições mais maduras.

O título Eat Myself sugere esse mesmo impulso de autoagressão reflexiva que atravessa muitas das letras e atmosferas: temas como identidade, autoquestionamento, relações pessoais e aquilo que nos consome por dentro são tratados com uma crueza que não perde o sentido de humor sarcástico da banda. A rapidez do álbum, com treze faixas distribuídas num formato relativamente conciso, não diminui a sensação de profundidade. Pelo contrário, até lhe confere um ritmo atento, quase como se fosse uma exploração de sensações e reflexões condensadas num espaço intenso e directo.

Mesmo depois de mais de quinze anos de carreira, os Together Pangea não parecem interessados em repetir os mesmos formatos. Eat Myself soa a banda a reconciliar-se com a própria história, trazendo à superfície experiências novas, tensões internas e a inevitabilidade de envelhecer enquanto se tanta manter-se fiel à energia inicial. A inclusão de colaborações — por exemplo, num single como “Halloween” com The Red Pears — mostra também uma abertura a parcerias que acrescentam novas perspetivas.

Eat Myself funciona como um álbum que tanto celebra a continuidade de um projecto sólido como aponta para novos horizontes. Há aqui uma maturidade sonora que nos chama e que reclama palcos maiores e necessários.

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