“Marty Supreme”: jogar para ganhar, custe o que custar

Eduardo Marino

Com nomeações aos Óscares, uma vitória de Timothée Chalamet nos Globos de Ouro e uma série de prémios que o colocam na pole position para Melhor Ator, Marty Supreme chega como um dos filmes mais falados do ano. Um retrato nervoso e acelerado de um anti-herói impossível de ignorar, à imagem do cinema dos irmãos Safdie.

Quando um filme de um dos irmãos Safdie entra na corrida aos prémios maiores de Hollywood, não é surpresa vermos nervos à flor da pele e adrenalina a subir. Mas Marty Supreme não é apenas mais um projeto na filmografia deles: é, neste momento, um dos títulos mais comentados da temporada, com nomeações de peso e uma atenção forte da crítica e do público.

Realizado por Josh Safdie e escrito por ele em parceria com Ronald Bronstein, Marty Supreme adapta livremente a vida do campeão de ténis de mesa Marty Reisman — um personagem lendário do mundo do pingue-pongue nas décadas passadas. A história acompanha Marty Mauser (interpretado por Timothée Chalamet), um jovem em Nova Iorque nos anos 1950 que tenta impor-se num desporto pouco valorizado, misturando sonhos de grandeza, ambição desmedida e uma confiança carregada de arrogância.

A narrativa gira em torno dessa corrida constante: apostas, desafios pessoais e relações que se complicam à medida que Marty sobe na hierarquia da sua própria obsessão. Ele é um anti-herói clássico — cheio de si, irritante, difícil de gostar à primeira — mas, com o desenrolar do filme, a forma como o guião e a interpretação o humanizam faz com que o espectador acabe por torcer por ele, mesmo sabendo que grande parte das suas ações são moralmente dúbias.

O ritmo nervoso de Marty Supreme é um dos seus traços mais evidentes e nasce da mesma energia que já caracterizou filmes anteriores dos Safdie, como Uncut Gems. A montagem, a câmara sempre em movimento e a intensidade das cenas de competição criam uma espécie de efeito “ping-pong cinematográfico”: um constante vai-e-vem que mantém o público alerta e quase tenso, como se estivesse do outro lado da mesa.

Do lado dos prémios, o mais falado é Timothée Chalamet. A sua interpretação como Marty valeu-lhe uma vitória de um Golden Globe de Melhor Ator na categoria de comédia ou musical — um dos primeiros grandes troféus da sua carreira — e também um Critics’ Choice Award pelo mesmo papel.

Agora, com as nomeações aos Oscares de 2026, Marty Supreme recebeu um total de nove nomeações, incluindo Melhor Filme, Melhor Realizador para Josh Safdie e Melhor Ator para Chalamet. Esse historial coloca Chalamet numa posição de destaque: aos 30 anos tornou-se o ator mais jovem de sempre a ser nomeado três vezes na categoria de Melhor Ator, um feito que não acontecia desde Marlon Brando.

O elenco secundário ajuda a dar corpo e textura ao filme. Gwyneth Paltrow surge num registo contido e eficaz, longe do protagonismo, a funcionar como contraponto emocional à energia excessiva de Marty. Odessa A’Zion acrescenta nervo e imprevisibilidade, trazendo uma presença contemporânea que quebra o tom histórico. Já Tyler, the Creator é uma das surpresas mais felizes: natural em cena, carismático e com um sentido de ritmo que encaixa perfeitamente no universo dos Safdie

Parte importante da experiência de Marty Supreme é a sua banda sonora. O score foi composto por Daniel Lopatin (também conhecido por trabalhos anteriores com os Safdie, incluindo em Uncut Gems) e mistura São sons electrónicos contemporâneos com músicas marcantes dos anos 80. Essa escolha musical funciona quase como um contraponto anacrónico ao contexto dos anos 1950 em que o filme se passa, mas contribui para o ritmo arrebatado e para a sensação de que tudo está sempre a um passo da explosão.

Marty Supreme não é um filme fácil de rotular: é ao mesmo tempo desportivo, dramático, irreverente e com um protagonista que muitas vezes irrita tanto quanto fascina.

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