Éme – Colegas de Trabalho (2026)

Francisco Pereira

O regresso do cronista da pop de Lisboa, as influências da Cafetra e a maturidade de João Marcelo no disco de Éme, ´Colegas de Trabalho'.

Se o percurso de Éme (João Marcelo) fosse uma conversa de café, Colegas de Trabalho seria aquele momento em que, depois de várias imperiais, a conversa deixa de ser apenas sobre as angústias de “Viver na Lisa” e passa a ser sobre a beleza de aceitar o quotidiano.

Editado no penúltimo dia de janeiro, este disco marca um regresso solar e comunitário do cantautor, reforçando a sua posição como um dos cronistas mais astutos da pop independente portuguesa. Depois do intimismo caseiro de Éme e Moxila (aquele registo durante a pandemia que parecia um segredo partilhado) e da exploração conceptual de Disco Tinto, o músico volta aqui a um som mais robusto, recuperando a energia de banda que já tínhamos sentido em Domingo à Tarde.

Este não é um disco sobre a vida de escritório no sentido literal, mas sim sobre a partilha e o ofício da música. O título reflete o espírito da Cafetra, o coletivo lisboeta onde Éme é peça fundamental, e a produção orgânica revela um artista que desistiu da ideia de fazer “a melhor canção de sempre” para se focar na honestidade de escrever “qualquer coisinha” num caderno. O resultado é um álbum que soa a ensaio aberto, com arranjos mais cheios onde a secção rítmica e a presença constante de Mariana “Moxila” Pita criam uma rede de segurança para as letras de João Marcelo.

Muitas destas canções nasceram de notas diárias, transformadas em melodias sem a pressão da perfeição. Faixas como “42” mostram essa transição de uma ideia de iPad para uma dinâmica de grupo real, enquanto temas como “Bullies” ou “La Féria” mantêm aquele ADN típico de Éme — refrões que entram à primeira, mas que escondem observações introspectivas sobre o medo de estar “alegre para todos e triste para mim”.

No fundo, Colegas de Trabalho é um retrato da maturidade de quem já anda nisto há mais de uma década; é um disco que aceita o erro e celebra a amizade, provando que a música popular portuguesa ganha muito quando não se leva demasiado a sério, mas se faz com o rigor de quem sabe exatamente o que está a dizer.

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