Sam & Louise Sullivan – Love & Devotion (2026)

Francisco Pereira

Crítica ao álbum 'Love & Devotion' dos irmãos Sam e Louise Sullivan, um duo de Filadélfia que tem vindo a destacar-se no panorama indie-folk.

Naturais de Filadélfia, os irmãos Sam e Louise Sullivan têm vindo a construir um percurso singular no panorama do indie-folk norte-americano. Com uma bagagem musical que remonta à infância a cantar cantigas tradicionais nas margens do rio Tualatin e a apresentações juvenis de música irlandesa em Nova Iorque, o duo junta a cúmplice harmonia vocal de sangue a uma sensibilidade pop contemporânea. Em 2026, com o lançamento do seu terceiro álbum de estúdio, Love & Devotion, os Sullivans afirmam-se definitivamente como uma das propostas mais luminosas e originais da sua cena local.

O disco foi gravado em fita no estúdio de cave do produtor Kevin Basko (ex-Foxygen), e destaca-se por uma sonoridade calorosa, analógica e propositadamente económica em recursos. Em temas de abertura como “Down on Love” e na cativante “There You Go Again”, o duo equilibra o lirismo surreal com reflexões inteligentes sobre a sobrecarga sensorial dos relacionamentos na era digital. A instrumentação minimalista, com guitarras pontuais e caixas de ritmos discretas, sopros de trompete e laivos de sintetizador, serve de moldura perfeita para a química vocal irrepreensível entre os dois irmãos.

Apesar da frescura evidente, o registo oscila quando cede, se calhar em demasia, ao peso das suas referências. O segmento intermédio do álbum perde alguma da energia psicadélica e relaxada ao aventurar-se por territórios mais convencionais, como o honky-tonk de “Since I Left” ou a estética folk de “Doing Time”, que acaba por eclipsar a agilidade do violino de Louise. É uma pequena desaceleração mas que, ao longo do tempo tem a base sólida certa para crescer.

Love & Devotion tem a capacidade de desconstruir a nostalgia em prol da experiência e é aí que mais brilha. Exemplo disso é quando atinge o auge na faixa de encerramento “Treehugger”, onde as camadas de sintetizador e a narrativa invulgar culminam numa ode familiar comovente. Sam & Louise Sullivan entregam assim uma obra acolhedora e imperfeita, e provam que a simplicidade do quotidiano pode ser o melhor ponto de partida para a grande pop.

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