Beck – Ride Lonesome (2026)

Crítica ao 15.º álbum de Beck, 'Ride Lonesome'. Um regresso íntimo, melancólico e acústico na linha de 'Sea Change' e 'Morning Phase'.

SE TEMOS DOIS OUVIDOS E UMA BOCA, POR ALGUMA RAZÃO É

Mais de três décadas após ter sido catapultado para a ribalta como o loser mais icónico do indie rock, Beck regressa em 2026 com o seu décimo quinto álbum de estúdio, Ride Lonesome. O disco sucede a um hiato de sete anos — o mais longo da sua carreira — marcado por profundas transformações pessoais, incluindo o fim do seu casamento de duas décadas e o afastamento definitivo de velhos laços familiares e religiosos. O resultado é um registo confessional que encerra (?) a trilogia retrospetiva e melancólica iniciada em Sea Change (2002) e continuada em Morning Phase (2014).

Ao longo de doze faixas, Ride Lonesome afasta-se da pop polida e de inspiração funk ou R&B de trabalhos recentes como Colors e Hyperspace, e aposta numa produção artesanal e num som caloroso e acústico. O álbum abraça a tradição do soft rock e do folk dos anos 70, oferecendo uma maturidade vocal comovente, entre ecos de Fleetwood Mac, Nick Drake, Big Star ou Pink Floyd. Destacam-se composições como a faixa-título, a atmosférica “In the Night”, a vulnerabilidade orquestral de “For Your Love” e a beleza de “It Ends Right Here”.

O disco é um exercício de cura e contemplação que, em vez do navegar à volta do sarcasmo ou das colagens surrealistas que marcaram o início da sua trajetória, assina versos diretos sobre perda, desolação, recomeços e ainda sobre a aceitação da solidão. Beck não se preocupa com a imprevisibilidade, criando uma exposição de sentimentos honestacom uma entrega emocional das canções que acabam por compensar a menor variedade rítmica.

Ride Lonesome posiciona-se assim como o regresso mais ponderado e maduro de Beck em quase duas décadas. É um disco íntimo, acolhedor e despido de artifícios, desenhado para ouvir com atenção nos dias mais frios e que recoloca o cantautor californiano no centro da fina arte da canção de autor.

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